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Direitos humanos em foco: Prémio Sakharov 2010

Guillermo Fariñas: Prémios Sakharov atribuídos a cubanos revitalizaram e reactivaram a oposição

 
 
Guillermo Fariñas, Havana, Cuba, 7 de Dezembro de 2010 © BELGA_AFP_ADALBERTO ROQUE   Guillermo Fariñas, Havana, Cuba, 7 de Dezembro de 2010 © BELGA_AFP_ADALBERTO ROQUE

A cadeira vazia no hemiciclo de Estrasburgo substituiu simbolicamente a presença de Guillermo Fariñas, laureado com o Prémio Sakharov 2010 para a Liberdade de Pensamento. Impedido de viajar até Estrasburgo, Fariñas explicou ao Europarl, em entrevista concedida por telefone no dia 13 de Dezembro, a importância do Prémio e da posição da UE em relação a Cuba.


Como é que se sente ao ser laureado com o Prémio Sakharov, atribuído em anos anteriores a personalidades como Nelson Mandela e Aung San Suu Kyi?

GF: Sinto uma grande responsabilidade, sobretudo em relação ao meu país e à minha terra natal.


Por que motivo escolheu a greve de fome como forma de protesto contra o regime cubano?

GF: Escolhi este método porque não tinha outra hipótese, a minha saúde estava a deteriorar-se gravemente. Tive uma trombose na parte esquerda do corpo e, se me vir forçado a regressar à greve de fome, terei poucas hipóteses de sobreviver. No entanto, se a repressão do regime me deixar numa situação insustentável, não terei muitas hipóteses de escolha a não ser morrer com a maior dignidade possível.


Considera que a União Europeia deveria mudar a sua política em relação a Cuba?

GF: Não. Respeito as pessoas que pensam de uma forma diferente, mas penso que a UE deveria apertar as suas políticas em relação a Cuba. Acima de tudo, deve manter a sua posição comum e não negociar com um governo que já traiu a UE. Não nos devemos esquecer que no passado o governo assumiu compromissos com a UE, antes de receber o auxílio económico da Venezuela, no sentido de melhorar a situação dos direitos humanos. A seguir, com o regime de Chavez, o governo cubano abandonou a mesa de negociações com a UE e manteve a sua posição autocrática. Penso que a UE não deve cair na mesma armadilha nem ouvir o canto das sereias do governo cubano, que diz que necessita de tempo para mudar, e deve estipular uma série de objectivos, mantendo a posição de que "se não cumprirem as vossas promessas, não negociamos convosco".


É o terceiro cubano a receber o Prémio Sakharov nos últimos oito anos. Os prémios anteriores tiveram algum impacto na situação política cubana?

GF: Penso que sim. Acredito que no caso do principal – mas não único – gestor do Projecto Varela, Oswaldo Payá, o Prémio forçou o governo a assumir que não estava a respeitar as suas próprias leis nem a Constituição. Foi muito importante porque, até esse momento, nunca o tinha assumido publicamente. O projecto Varela mostrou ao mundo que o governo cubano nem sequer as suas próprias leis respeita. Para não mencionar o direito internacional. Relativamente às Damas de Branco, a situação mudou porque, a seguir à onda de repressão de 2003, o movimento dissidente foi paralisado, especialmente no que se refere às acções pacíficas que se realizavam na rua e, nesse sentido, as Damas de Branco, criaram um modelo com a sua dor. Penso que foram prémios muito importantes porque revitalizaram e reactivaram o movimento de oposição que, em apenas 3 dias e com um único 'sopro', tinha sido imobilizado. Foi uma grande conquista das Damas de Branco porque, apesar das injustiças, ameaças e exílios, as pessoas deixaram de ter medo.


Qual o significado do Prémio Sakharov para si?

GF: O principal significado deste Prémio é o facto de, pela primeira vez, o governo cubano ter sido, apesar das suas manobras para obter o apoio do governo espanhol e, até certo ponto, da Santa Sé, forçado a ceder numa base humanitária. O governo tenta sempre passar a mensagem de que os seus conflitos não têm nada a ver com o povo cubano mas sim com outros países ou blocos de países. Neste caso, a iminência da minha morte e a condenação internacional da morte de Orlando Zapata colocaram o governo numa posição muito difícil. A seguir, foi necessário que um mediador suficientemente credível como a igreja católica viesse e suavizasse o descrédito em relação a Cuba.


Por que motivo rejeitou a opção do asilo político em Espanha?

GF: Não irei para Espanha nem para qualquer outro lugar. Não quero estar exilado, seja em que circunstâncias for. Respeito todos os meus irmãos que decidem seguir esse caminho, mas acredito que a luta deve ser travada aqui. Se deus quiser, viverei, se deus quiser serei morto pelos efeitos da ditadura de Castro. Mas penso que temos de lutar aqui porque o principal desafio está aqui.


Uma cadeira vazia na cerimónia de entrega do Prémio Nobel da Paz, uma cadeira vazia na cerimónia de entrega do Prémio Sakharov. Como entende isto?

GF: Concordamos com a cadeira vazia, mas gostaríamos que nela fosse colocada uma bandeira cubana. Gostaria de enviar uma mensagem a todos os cidadãos da UE representados no Parlamento Europeu: nunca deixem de acompanhar a situação cubana, porque cada vez há mais sinais de explosão social, mesmo entre cubanos que não estão formalmente envolvidos em movimentos de oposição. O governo cubano, com a arrogância de 52 anos de absolutismo, é capaz de perseguir os meus compatriotas e tanto o Parlamento Europeu como todos os cidadãos representados devem estar prontos a condenar esse comportamento e agir.