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Crise do gás Ucrânia-Rússia: UE precisa de uma política energética mais firme

Energia - 12-01-2006 - 18:17
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Os Presidentes Yushchenko e Putin

Os Presidentes Yushchenko e Putin

A política energética russa esteve no centro das atenções a 11 de Janeiro, quando os deputados se reuniram para debater a disputa do gás entre a Rússia e a Ucrânia. A reunião foi convocada com carácter de urgência, visto que no dia anterior o Governo de Kiev foi censurado pelo parlamento do país pela maneira como conduziu a crise.

Com cerca de um quarto do gás de que a UE necessita a ser fornecido pela Rússia, a urgência de se diversificar as fontes de energia e de desenvolver uma política energética europeia comum tornou-se no tema principal em debate.
 
Uma disputa sem precedentes
 
Nos primeiros dias do ano, a delegação do Parlamento Europeu para as relações com o Parlamento ucraniano decidiu convocar uma reunião extraordinária quando as tensões entre a Rússia e a Ucrânia sobre os preços do gás acenderam os ânimos, levando a supor que os países da UE pudessem sofrer também um corte no fornecimento de gás. Embora os dois países tenham, entretanto, alcançado um acordo a curto prazo, há ainda muito a ser discutido.
 
No início da reunião de quarta-feira, dia 11, o Presidente da delegação do PE, o deputado socialista polaco Marek Siwiec, alertou para a situação difícil em que a UE se encontra: “em resultado da crise do gás entre a Rússia e a Ucrânia, pela primeira vez na história, foram interrompidos os fornecimentos de gás a muitos países da UE (...) a escala dos recentes acontecimentos não tem precedentes. Isto deveria ser um aviso para os Estados-Membros da UE”. O deputado alertou que deve ser criado  “um mecanismo eficaz para garantir a segurança do fornecimento de energia a todo o continente”.
 
Diversidade é a chave
 
A necessidade de diversificar os recursos energéticos foi corroborada pelos deputados Thijs Berman (deputado social-democrata holandês) e Jerzy Buzek (deputado democrata-cristão polaco) . Este último afirmou que a crise demonstra  “que precisamos de uma maior cooperação e coordenação sobre a política energética na UE”. Buzek defendeu uma “política energética comum”, similar à actual política agrícola comum na Europa. Berman salientou que a eficiência energética na Ucrânia poderia ser melhorada, de modo a reduzir para metade as suas necessidades energéticas, e solicitou o apoio da UE na área da inovação.
 
Quanto ao gás, “há uma dependência mútua entre a Rússia, enquanto principal fornecedor, a Ucrânia, enquanto principal país de trânsito, e a UE, enquanto principal  consumidor”, disse Hilde Hardeman, em nome da Comissão Europeia. Camiel Eurlings, deputado democrata-cristão holandês e Presidente da delegação do Parlamento para as relações com o Parlamento russo, salientou que a Rússia quer fortalecer o acordo de cooperação com a UE e quer o apoio europeu para aderir à Organização Mundial de Comércio. Eurlings não questionou o direito da Rússia de caminhar em direcção a preços de mercado para os fornecimentos de gás, mas considera  que o modo como a Rússia tratou este assunto foi inaceitável e que mostrou o seu desejo de exercer poder sobre o seu país vizinho. Eurlings apelou a uma discussão estratégica sobre energia, incluindo o papel da tecnologia nuclear moderna. O deputado conservador britânico Charles Tannock foi ainda mais longe, afirmando que "deve ser particularmente considerada a construção de novas centrais nucleares e também o desenvolvimento de fontes energéticas renováveis, com vista a diminuir a nossa dependência das importações de qualquer área geográfica".
 
Na adversidade é que se conhecem os amigos
 
De acordo com Roman Shpek, embaixador da Ucrânia na UE, a Rússia tentou criar uma “situação de crise” no sector do gás e usá-la como meio de “pressão política”, a poucos meses das eleições parlamentares na Ucrânia. Agradeceu à UE por ter provado a verdade do ditado "é na adversidade que se conhecem os amigos". Respondendo à preocupação dos eurodeputados de que o acordo alcançado dure apenas por seis meses,  Roman Shpek assegurou que a dissolução do Governo ucraniano não afectará os esforços do país para alcançar um acordo final e duradouro sobre o problema do gás com a Rússia. O embaixador acrescentou que o Ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano já pediu o apoio da Comissão Europeia para as futuras negociações com a Rússia.
 
Maior cooperação no futuro?
 
O desenvolvimento da cooperação entre a UE e  a Ucrânia e a Rússia no domínio da eficiência e da diversidade energética deu já um passo em frente com um “memorando de entendimento” sobre energia entre a Ucrânia e a UE, assinado em Kiev em Dezembro do ano passado.
 
O Parlamento Europeu deverá continuar a debater este assunto durante a sessão plenária da próxima semana, em Estrasburgo.
 
REF.: 20060112STO04233