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Entrevista com Jo Leinen: "Os direitos humanos são o fundamento da identidade europeia"
Direitos fundamentais - 29-11-2007 - 17:33
Esta semana os eurodeputados debatem e votam um relatório do eurodeputado alemão Jo Leinen, referente à aprovação da Carta dos Direitos Fundamentais da UE pelo PE. O documento será proclamado oficialmente pelo Parlamento, pela Comissão e pelo Conselho no dia 12 de Dezembro, em Estrasburgo. Com a entrada em vigor do novo Tratado reformador, a Carta passa a ser vinculativa. Em que medida irá afectar a vida dos cidadãos europeus e em que medida é diferente da actual Convenção dos Direitos Humanos?
A Carta dos Direitos Fundamentais reflecte o compromisso da União Europeia com os direitos humanos e as liberdades fundamentais. O Tratado de Amesterdão, assinado no dia 1 de Maio de 1999, introduziu as primeiras disposições de protecção destes direitos fundamentais. O eurodeputado alemão Jo Leinen (Grupo Socialista), presidente da comissão parlamentar dos Assuntos Constitucionais, concedeu-nos uma entrevista sobre o assunto.
A Carta dos Direitos Fundamentais foi assinada em Nice no dia 7 de Dezembro de 2000 e será oficialmente proclamada no dia 12 de Dezembro de 2007. A que se deveu este intervalo de 7 anos para a sua proclamação? O que mudou desde 2000?
"A Carta faz parte integrante do novo Tratado de Lisboa e terá um carácter vinculativo para as instituições europeias. A partir desse momento, os cidadãos europeus passam a poder exercer os seus direitos perante o Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias, no Luxemburgo. A proclamação da carta pelas três instituições (Parlamento, Conselho e Comissão) é um acto público. Quando o Tratado for adoptado, estes 50 direitos e liberdades passam a fazer parte do acervo legislativo europeu".
O carácter vinculativo da Carta dos Direitos Fundamentais significa que se por exemplo um Estado-Membro da UE violar o direito de liberdade de expressão e reunião pacífica, pode ser acusado perante o Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias no Luxemburgo?
"A carta aplica-se apenas a actos e a legislação da União Europeia, quer seja directamente implementada pela Comissão ou indirectamente pelos Estados-Membros, regiões ou autoridades locais. Não se aplica a actividades puramente nacionais, que se encontram regulamentadas nos direitos fundamentais das Constituições nacionais".
De que forma estará a Carta relacionada com a Convenção Europeia dos Direitos Humanos? A partir de agora, a quem devem os cidadãos europeus recorrer em caso de violação de um direito fundamental, ao Tribunal Europeu dos Direitos Humanos em Estrasburgo ou ao Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias no Luxemburgo?
"A Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia de 2007 é mais abrangente e actual do que a Convenção Europeia dos Direitos Humanos, assinada em 1950. Nesta Carta estão previstos direitos actuais, designadamente o direito à protecção dos consumidores, a um bom ambiente, a uma administração pública eficaz, à protecção de dados, à proibição de clonagem de seres humanos. Os cidadãos europeus têm a sorte de usufruir de um sistema duplo, pelo que não haverá falta de protecção dos direitos humanos. Por um lado temos a Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia e, por outro lado, temos a Convenção dos Direitos Humanos. Penso que é um sistema único no mundo. Os dois tribunais de protecção dos direitos humanos, o de Estrasburgo e o do Luxemburgo, funcionarão em estreita colaboração, de forma a que os cidadãos estejam completamente protegidos nesse domínio. As acções podem ser interpostas num ou noutro tribunal".
Qual a sua opinião pessoal sobre a Carta?
"Depois das atrocidades cometidas durante a 2ª Grande Guerra, responsável pela morte de cinquenta milhões de pessoas e por muitas violações dos direitos humanos, penso que a protecção dos direitos humanos é a alma da Europa e o fundamento da identidade europeia, da Polónia a Portugal. Todos defendemos os valores civilizacionais expressos nesta Carta. No entanto, trata-se de um marco muito importante no processo de unificação europeia, sobretudo porque significa que a UE não é apenas um grande mercado e que também defende os direitos dos seus cidadãos. É uma expressão da Europa dos cidadãos e não da Europa dos mercados e dos países".
Qual é o próximo passo?
"Este é o último passo. Esperámos cinquenta anos por esta Carta".
REF.: 20071126STO13630

