Artigo
 

Entrevista com Jeffrey Sachs sobre a crise alimentar mundial

Desenvolvimento e cooperação - 07-05-2008 - 17:25
Partilhar / Guardar
Jeffrey Sachs no Parlamento Europeu

Jeffrey Sachs no Parlamento Europeu

No dia 5 de Maio, o conselheiro especial do Secretário-Geral das Nações Unidas para os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio esteve no PE em Bruxelas. Durante a reunião com a comissão parlamentar do Desenvolvimento, Jeffrey Sachs falou da crise alimentar e de saúde no mundo. Considerado como uma das pessoas mais influentes do mundo pela revista Time, Sachs acredita na possibilidade de erradicar a pobreza. Em entrevista exclusiva, falou-nos da crise actual e das formas de a ultrapassar.

O preço dos alimentos sofreu um aumento muito acentuado num curto espaço de tempo. Porquê?
"A procura de alimentos no mundo ultrapassou a oferta existente, o que se deve a diversos factores. Em primeiro lugar, a produtividade continua a ser muito reduzida em África e noutras regiões pobres do globo. Em segundo lugar, as alterações climáticas registadas na Austrália, na Europa e noutras regiões produtoras de cereais afectaram as produções. Em terceiro lugar, a utilização de culturas para produção de biocombustíveis. Em quarto lugar, os níveis muito reduzidos de stocks existentes fizeram com que, quando a procura aumentou, não existissem alimentos suficientes para fazer face às necessidades existentes. A conjugação destes factores resultou num aumento acentuado do preço dos produtos alimentares. Por outro lado, os obstáculos comerciais colocados pelos países que exportam produtos alimentares, tendo em vista manter a estabilidade dos preços nos respectivos países, provocaram um aumento ainda mais acentuado do preço dos alimentos nos países importadores. No fundo, o principal desafio prende-se com o facto de a procura de alimentos ter aumentado muito mais do que a oferta."
 
O Secretário-Geral da ONU afirmou que o aumento do preço dos alimentos põe em causa os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio, destinados a acabar com a pobreza global extrema até 2015. Concorda com esta afirmação?
"Claro que sim! O passo mais importante é aumentar a produção de alimentos nos países pobres. Na maior parte dessas regiões e volto a referir o exemplo africano, a produção de alimentos representa apenas metade ou um terço da capacidade produtiva. Nesses países, os agricultores são tão pobres que não têm capacidade para investir em boas sementes, em fertilizantes ou em sistemas de irrigação. Acredito que para ultrapassar esta crise é necessário financiar a oferta nos países pobres, para aumentar a produção e baixar os preços, o que poderá ajudar a resolver a situação de emergência que se vive actualmente."
 
O sistema agrícola europeu tem sido muito referido durante as negociações comerciais mundiais. Em que medida pode a Europa contribuir para resolver a crise do preço dos alimentos?
"A Europa pode financiar os países pobres para os ajudar a aumentar a sua própria produção de alimentos. Trata-se, na minha opinião, do primeiro passo a dar. Em 2005, o Malawi introduziu um programa que garantiu o acesso a fertilizantes e sementes de elevada qualidade a todos aos agricultores. Em poucos meses, o país duplicou a produção de alimentos, situação que se mantém até hoje. Estas políticas têm custos orçamentais porque o governo assegura a disponibilidade de bens básicos a preços reduzidos. A Europa pode ajudar os governos africanos a financiar os seus agricultores, para que consigam produzir mais alimentos. Este seria o primeiro passo. Num segundo momento, que não é urgente mas poderá ser útil, penso que devemos repensar a política de produção de biocombustíveis, para que não entrem em concorrência com a oferta de bens alimentares, nomeadamente no que se refere aos terrenos onde são cultivados."
 
A crise alimentar é um problema que só pode ser resolvido pelos governos e grandes organizações ou os cidadãos também podem dar um contributo individual?
"Penso que a curto prazo este problema terá de ser resolvido através de programas governamentais, para que seja possível aumentar efectivamente a oferta de produtos alimentares nos países pobres. A médio e longo prazo, a forma como vivemos e os nossos hábitos alimentares também serão importantes na resolução do problema. Todos nós sabemos que são necessários 8 quilogramas de cereais para obter 1 quilograma de carne. O facto de a nossa alimentação depender da carne coloca muita pressão no sistema alimentar. Nesse sentido, penso que uma dieta com menos carne, mais vegetais e mais peixe, que requerem apenas 3 quilogramas de alimento, pode ser uma solução benéfica para todo o planeta. Mas penso que no que se refere à crise actual, o nosso papel é o de afirmar perante os nossos governos que não queremos políticas que negligenciem a necessidade urgente de mil milhões de pessoas que passam fome no mundo. A Europa, os Estados Unidos da América e outros governos devem ajudar os agricultores dos países pobres a aumentar a oferta de alimentos, de forma a poder acabar com esta crise alimentar no mundo." 
 
REF.: 20080505STO28114