Dossier
 

A crise humanitária em Darfur

Relações externas - 11-06-2007 - 10:05
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Refugees wait for water at a refugee camp after they fled the Sudanese Darfur region following violent clashes on the border 27 June 2004 in Kariari, Eastern Chad.  © BELGA/AFP/Thomas Coex

Darfur: uma das crises mais graves do mundo

A situação da região de Darfur, a oeste do Sudão, constitui segundo as Nações Unidas uma das crises humanitárias mais graves do mundo. Em 2003, os rebeldes acusaram o governo de abandonar as religiões distintas ao Islão e de oprimir a população negra em favor dos árabes. Por sua vez, o Governo apoiou as milícias árabes que responderam assassinando milhares de civis.

Em Maio de 2005, o Conselho de Segurança da ONU aprovou um plano para criar uma força de manutenção de paz em Darfur, plano esse diversas vezes rejeitado pelo Sudão. Desde o início do conflito, cerca de 200.000 pessoas já perderam a vida, mas a ONU alerta que o número real pode chegar aos 450.000. O Parlamento Europeu debateu a situação e busca uma solução para o conflito.
 
 
REF.: 20070601FCS07344

Desmond Tutu e Jody Williams no Parlamento Europeu

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South-African Archbishop Desmond Tutu, Nobel Peace Prize winner in 1984, and Prof. Jody Williams, Nobel Peace Prize winner in 1997, before the EP Conference of Presidents on Darfur, 5 of June 2007.

Desmond Tutu: "A mudança é possível"

O arcebispo sul-africano Desmond Tutu e a pacifista norte-americana Jody Williams, ambos galardoados com o Prémio Nobel da Paz, explicaram aos eurodeputados a sua visão sobre a crise de Darfur a 5 de Junho. Tutu mostrou-se favorável à imposição de sanções ao Sudão por parte da ONU, enquanto que Williams relatou a sua recente viagem à região com a delegação das Nações Unidas.
 
Desmond Tutu: "Um africano orgulhoso"
 
Durante a reunião, Tutu agradeceu a preocupação dos líderes Europeus ante o "maior exemplo de desumanização" no que respeita aos direitos do homem, referindo-se à violação de mulheres, destruição de habitações e colheitas e à quantidade de pessoas que se vê obrigada a abandonar o seu lar. "Não vamos desistir, a mudança é possível em Khartoum" afirmou, assegurando que se sente um "africano orgulhoso", apesar da gravidade da situação.
 
Jody Williams: "Quantas vezes já mentiram?"
 
Por sua parte, Jody Williams alertou para a importância  e para a precaução quanto a "acreditar em Khartoum". "Quantas vezes já mentiram?", perguntou. Deixou um pedido á União Europeia para que retire a ajuda económica ao Sudão como medida de pressão e afirmou que apoia a força de paz da União Africana, entre outros aspectos.
 
O eurodeputado alemão Jürgen Schröder (Grupo do Partido Popular Europeu e dos Democratas Europeus) disse a Tutu que " quando o muro de Berlim ainda estava de pé, o seu nome era citado com frequência. Ouvimos falar da transição pacífica no seu país, nós também tivemos uma". Schröder anunciou ainda que o Parlamente Europeu irá enviar em breve uma delegação a Darfur.
 
Os eurodeputados e a situação de Darfur
 
A eurodeputada britânica Glenys Kinnock (Grupo Socialista) reclamou ema estratégia internacional com uma melhor coordenação sobre Darfur e referiu-se ao conflito como "uma história trágica de promessas incumpridas". "Com impunidade, as feridas nunca saram", afirmou, considerando que os responsáveis pelos crimes de Darfur devem comparecer perante a justiça. O eurodeputado britânico Graham Watson (Grupo da Aliança dos Democratas e Liberais pela Europa) manifestou-se na mesma linha, afirmando que "se fores passivo, estás do lado do opressor", enquanto que o eurodeputado polaco Ryszard Czarnecki (Grupo União para a Europa das Nações) deixou a mensagem que "Darfur não pode esperar, assim como a Europa, porque a falta de reacção da nossa parte é uma vergonha e um sinal de negligência".
 
A eurodeputada italiana Luisa Morgantini (Grupo Confederal da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Nórdica Verde ) considerou que o principal problema de Darfur é a pobreza, derivada da ausência de um governo que dê ouvidos aos seus cidadãos. Por sua vez, a eurodeputada eslovaca não inscrita Irena Belohorská mostrou-se especialmente preocupada com a situação das crianças nos campos de refugiados. "O mundo inteiro tem a obrigação de proteger os civis de Darfur, sobretudo as crianças".
 
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Jody Williams: "A não ser que exista pressão internacional, Khartoum continuará a mentir"

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Prof. Jody Williams, Nobel Peace Prize winner in 1997, before the EP Conference of Presidents on Darfur, 5 of June 2007.

"Sem acções consistentes os gestos são vazios"

Em 1997, Jody Williams converteu-se na décima mulher galardoada com o Prémio Nobel da Paz em cem anos de história do prémio. Williams foi distinguida com o prestigioso galardão pela sua luta contra as minas terrestres antipessoal. Fundou a Campanha Internacional para a Proibição das Minas Terrestres, uma coligação de ONGs sem precedentes, que tornou possível a aprovação do tratado de aprovação das minas em menos de sete anos. Actualmente trabalha para a estabilidade de Darfur, liderando uma missão das Nações Unidas na região, pela qual apresentou a 7 de Março um relatório muito crítico sobre a situação na zona.
 
Após a rápida aprovação do Tratado que proíbe as minas terrestres, pensa que o "poder do povo" também irá funcionar no caso de Darfur?
 
Provavelmente não da mesma forma. O Tratado sobre minas terrestres era muito específico. Podemos pressionar os governos para negociarem especificamente um tratado. No caso de Darfur não existe uma pressão internacional consistente sobre Khartoum para que coloque um fim à sua guerra contra as insurreições, e assim pode fazer o que pretender. A não ser que exista pressão internacional, Khartoum continuará a mentir.
 
O pode do povo funciona de forma diferente para os governos que não são capazes ou não conseguem exercer a sua responsabilidade de protecção, como demonstram as últimas três resoluções das Nações Unidas. As pessoas pressionam, e pelo menos nos Estados Unidos alguns Estados retiraram os seus fundos de pensões das companhias que negoceiam com Khartoum, situação que faz com que estejam implicadas na guerra. Creio que a pressão internacional sobre as empresas aumentará.
 
Parece que esta estratégia atrai menos atenção mundial que outras?
 
Darfur tem muita presença nos Estados Unidos. Do meu ponto de vista, esta situação representa o fracasso absoluto da comunidade internacional em exercer a sua "responsabilidade de proteger". Esta responsabilidade de proteger os seus próprios cidadãos da limpeza étnica e dos crimes de guerra contra a humanidade e o genocídio recai, em primeiro lugar, no próprio Estado. Mas se este não poder exercê-la, então essa responsabilidade é da comunidade internacional.
 
Esta situação surgiu depois do genocídio de Ruanda, quando o mundo disse "nunca mais", mas parece que este "nunca mais" não se aplica ao caso de Darfur. Falta algo à comunidade internacional, que criou a norma mas não a está a seguir. Se não o vão fazer o melhor mesmo é estarem calados.
 
Pensa que os poderes externos também têm responsabilidade na tragédia de Darfur?
 
Não na sua criação, mas os Estados que continuam a investir em Darfur têm uma parte da responsabilidade. A China tem, assim como o Japão, que é um dos maiores compradores do petróleo do Sudão. A China é um dos maiores investidores. Uma elevada percentagem do petróleo de Khartoum é consumida no país. As empresas e os accionistas também têm responsabilidades nesta situação. A atitude "se eu não invisto investirá outro" é inaceitável. Onde está a moralidade? 
 
Até há pouco tempo a China insistiu numa política de não interferência. Parece que o que despoletou os seus nervos foi um artigo de opinião publicado recentemente no "Wall Street Journal", com o título "Olimpíadas do genocídio", escrito pela embaixadora da boa vontade da UNICEF Mia Farrow. A China ficou bastante ofendida e considerou-o como um ataque aos Jogos Olímpicos. Mas a não ser que assumam um papel mais activo para que Khartoum tome um novo rumo, creio que o debate é apropriado.
 
Há dois anos atrás participou no Dia da Informação sobre as minas terrestres, organizado pelo Parlamento Europeu, e hoje volta ao Parlamento. Que pode fazer esta instituição para ser mais eficaz na construção de um mundo mais humano?
 
Para ser sincera, estou cansada de ouvir os Europeus criticarem os Estados Unidos, em vez de falarem a uma só voz. Quando os norte-americanos lhes dizem para saltar, perguntam a que altura. Se a União Europeia quer ser realmente o contrapeso dos Estados Unidos, tem que ser um bloqueio. Sem acções consistentes os gestos são vazios. Estou saturada da retórica sem acção, seja por culpa de Estados, de indivíduos ou de ONGs. Os governos têm que representar a opinião dos seus cidadãos fazendo algo.
 
Qual é a sua opinião sobre a contribuição dos famosos e de que Darfur se tornar num caso da "moda"?
 
Creio que os famosos têm direito a implicar-se, porque podem ter uma contribuição importante. No entanto, não gosto quando se implicam famosos ignorantes ou sem formação e as suas opiniões contam mais que as dos outros. No caso do Tratado de proibição de minas terrestres, a decisão de não implicar famosos foi deliberada. Pode fazer com que o público em geral não compreenda o trabalho real dos activistas.
 
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Desmond Tutu: A situação de Darfur é "uma das mais horríveis do mundo"

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South-African Archbishop Desmond Tutu, Nobel Peace Prize winner in 1984, before the EP Conference of Presidents on Darfur, 5 of June 2007.

"Os desafios não têm fim"

O bispo sul-africano Desmond Tutu recebeu o Prémio Nobel da Paz em 1984 e alcançou a fama mundial como uma figura de destaque na luta contra o "apartheid". Tutu, de 76 anos de idade, deslocou-se ao Parlamento Europeu no passado 5 de Junho de 2007 para participar num debate sobre Darfur com os eurodeputados. Tivemos a oportunidade de conhecer a sua opinião sobre a situação de Darfur, "uma das mais horríveis do mundo".
 
O que o levou a aceitar o convite do Parlamento Europeu? De que forma pode a sua presença ajudar as pessoas de Darfur?
 
A situação de Darfur é uma das mais horríveis do mundo. O Parlamento Europeu é uma instituição com uma grande notoriedade internacional e se pretender colocar em relevo um dos mais horríveis panoramas do mundo pode fazê-lo. A oportunidade de participar em qualquer esforço que possa melhorar a situação deixa-me encantado.
 
Calcula-se que desde o começo do conflito de Darfur já se registaram 200.000 vítimas mortais e 2,5 milhões de pessoas viram-se obrigadas a abandonar os seus lares. A União Europeia já enviou ajuda humanitária à região e apoiou também a missão da União Africana. Que mais pode fazer?
 
Obviamente, precisamos de um apoio considerável à força de paz da União Africana, incapaz de ser eficaz. Em primeiro lugar porque não é suficientemente grande, por isso é tão importante que a ONU tenha mostrado a intenção de a aumentar significativamente.
 
Mesmo assim, esperamos que a União Europeia continue a aumentar o seu apoio a esta força, para que seja realmente eficaz a realizar o seu trabalho mais importante: a protecção dos civis e da população desarmada como as mulheres, como as crianças, como os idosos, como eu.
 
Recebeu o prémio Nobel da Paz em 1984 pela sua luta contra o "apertheid" e a favor da paz. Agora que a política do "apartheid" terminou, quais são os principais desafios que África enfrenta?
 
É importante que sejamos capazes de conseguir algumas vitórias: conseguimos superar o apartheid na África do Sul e o colonialismo em muitas partes do mundo. Mas os desafios não têm fim.
 
A Europa é razoavelmente próspera e pacífica, mas também teve uma história turbulenta no passado. O holocausto, as ditaduras em Espanha, Portugal e Grécia, e recentemente a limpeza étnica. Enfrenta ainda uma situação séria na Irlanda do Norte.
 
Acreditamos que tal como a Europa conseguiu fazer ressurgir Fénix das cinzas, a África também poderá ressurgir e fazer frente aos seus inúmeros problemas. Um dos mais sérios é a SIDA, para além das alterações climáticas, que está a começar a converter a malária numa séria ameaça para a saúde da maioria dos africanos, o que magnifica problemas como a escassez de água, a seca e o facto das pessoas começarem a ficar menos produtivas no que se refere à alimentação. Todos estes aspectos farão com que a longo prazo o continente se torne instável. Se conseguirmos enfrentar estes problemas, como fizemos com o "apartheid", sem dúvida que seremos capazes de superá-los.
 
Também existe um problema de corrupção. Há um grande número de governos que não são transparentes. Temos assistido a coisas horríveis no Zimbabué. Esperamos que todas as iniciativas actuais ajudem África a voltar aos seus tempos gloriosos.
 
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