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Prémio Sakharov: anteriores laureados falam-nos das suas causas

Direitos do Homem - 30-01-2009 - 17:24
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Cerimónia de entrega do Prémio Sakharov 2008

Cerimónia de entrega do Prémio Sakharov 2008

Em Dezembro de 2008, o Parlamento Europeu celebrou o 20° aniversário do Prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento com uma cerimónia especial, para a qual foram convidados os laureados das edições anteriores. As entrevistas que agora publicamos dão-nos conta do impacto do Prémio na vida dos laureados e indicam o que deve ser feito para ampliar esse impacto.

Os laureados do Prémio Sakharov dedicam-se a causas específicas e são originários de diferentes locais do mundo. Da China ao Sudão, passando pelos Balcãs, por Cuba ou pelo Bangladesh, todos defendem a liberdade de expressão e de pensamento, e a salvaguarda da dignidade humana. Punição dos crimes contra civis, defesa do direito de petição, dos direitos das mulheres e das reformas democráticas são algumas das suas missões.
 
Nesta série de entrevistas ficamos a saber mais sobre as causas a que se dedicam e a forma como o Prémio Sakharov os ajudou a continuar a defendê-las.
 
 
REF.: 20090106FCS45491

Salih Osman e a situação em Darfur

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Salih Mahmoud Osman, Prémio Sakharov 2007, durante a entrevista. 17 de Dezembro de 2008, Parlamento Europeu, Estrasburgo.

"… a China prejudica a vida de milhões de pessoas em Darfur"

No dia 17 de Dezembro, Salih Mahmoud Osman, Prémio Sakharov 2007, esteve no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, para prestar homenagem ao trabalho dos defensores dos direitos humanos no mundo. Antes da cerimónia de atribuição do 20° Prémio Sakharov, Osman afirmou que a situação em Darfur é pior do que no Ruanda e que a China deve rever a sua política na região.
 
Os sudaneses sentem a coragem necessária para ter esperança no futuro?
"Devemos manter-nos sempre optimistas em relação ao futuro, apesar de a situação actual ser muito frustrante: a região de Darfur está completamente dilacerada por questões étnicas.
 
Mais de 4 milhões de pessoas foram forçadas a abandonar as suas residências, vivem em campos e não podem regressar a casa. Mas até nos campos estão sujeitas aos ataques da milícia Janjauid e de soldados do governo, à luz do dia, perante as forças das Nações Unidas e da União Africana".
 
O que se passa quanto ao anúncio de cessar-fogo?
"O cessar-fogo não aconteceu e os bombardeamentos aéreos continuam. O governo bombardeia indiscriminadamente vilas, mercados, escolas e poços, matando pessoas. Isto está a acontecer perante os olhos do mundo inteiro. Os sobreviventes e as vítimas não vêm qualquer acção destinada a proteger os inocentes por parte da comunidade internacional.
 
Sem a ajuda da comunidade internacional, 5 milhões de pessoas não estariam vivas hoje. Mas não é suficiente alimentá-los nos campos, trata-se também da esperança de poderem regressar a casa. Se os confinarmos aos campos estamos a compactuar com a limpeza étnica. As terras que lhes pertenciam estão agora ocupadas por membros da Janjauid, vindos de outros locais".
 
Quando recebeu o Prémio Sakharov afirmou que não pode haver paz sem justiça. Que possibilidades de justiça prevê para Darfur?
"Em Darfur estamos a falar de crimes de guerra, de crimes contra a humanidade e de genocídio. A comunidade internacional afirmou que nunca mais poderá suceder algo como sucedeu no Ruanda, mas o que se passa em Darfur é pior do que o que se passou no Ruanda.
 
Por vezes as pessoas dizem-me que não devo falar de justiça nem de responsabilidade, porque isso poderá comprometer o processo de paz... Pelo contrário, só a justiça poderá parar os criminosos. Sem justiça estamos a promover a cultura da impunidade que se instalou em Darfur.
 
A justiça pode fazer a diferença. Contrariamente ao que se receava, o pedido de detenção de três líderes rebeldes de Darfur feito pelo Procurador-Geral do Tribunal Penal Internacional tornou a situação mais propícia às conversações de paz. Pela primeira vez, o governo fala de iniciativas de paz e de reformas no nosso sistema judicial".
 
O Parlamento Europeu atribui hoje o Prémio Sakharov pela vigésima vez. Este Prémio teve algum impacto no seu trabalho e pode ajudar a aliviar a opressão contra os defensores dos direitos humanos?
"Absolutamente! Este Prémio é uma grande ajuda para os defensores dos direitos humanos e pode proteger-nos. Todos os laureados contaram com o apoio dos cidadãos dos 27 Estados-Membros. Poderá igualmente apoiar de forma decisiva Hu Jia, que não pode participar na cerimónia de hoje, e pressionar a China a rever a sua posição perante os direitos humanos.
 
Há muito tempo que a China prejudica a vida de milhões de pessoas em Darfur, colocando-se ao lado do governo sudanês, que utiliza helicópteros militares chineses para os bombardeamentos, e bloqueando as resoluções sobre Darfur no Conselho de Segurança das Nações Unidas.
 
A China detém actualmente o monopólio dos nossos recursos e os seus interesses económicos estão a prejudicar o respeito pelos direitos humanos básicos e pela dignidade em Darfur.
 
A China tem responsabilidades morais, legais e éticas perante toda a comunidade internacional, mas é indiferente às violações grosseiras como o genocídio, os crimes de guerra e os crimes contra a humanidade praticados em Darfur.
 
O povo sobrevivente de Darfur fica muito surpreendido com o facto de a China agir contra os seus interesses e espero que os chineses revejam a sua política. A situação humanitária em Darfur é terrível, na medida em que o mundo inteiro apoia o caso de Darfur, com excepção da China".
 
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Wei Jingsheng: uma voz dissidente num país "anormal"

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Wei Jingsheng durante a entrevista

Wei Jingsheng durante a entrevista

O dissidente chinês Wei Jingsheng recebeu o Prémio Sakharov em 1996 pelas suas actividades desenvolvidas em prol da democracia desde a década de 1970, que lhe custaram duas detenções e, posteriormente, o exílio da China. Tal como sucedeu com Hu Jia em 2008, Wei encontrava-se detido no momento de atribuição do Prémio Sakharov e não pôde estar presente para o receber pessoalmente.
 
Doze anos após ter recebido o Prémio Sakharov, o laureado deste ano também é um dissidente chinês. Tudo permanece igual na China?
"Os chineses mudaram ao longo dos últimos doze anos. Quando recebi o Prémio, muitos chineses acreditavam na democracia mas ainda tinham esperanças no Partido Comunista chinês. Actualmente, a maioria dos chineses deixou de ter esperança nas reformas realizadas pelo governo comunista. Isso significa que a sociedade chinesa corre sérios riscos".
 
A China é um país mais rico, os chineses ganham dinheiro e mudam-se para as cidades. Será que as pessoas têm tempo e disponibilidade para ouvirem vozes como a sua?
"Apenas uma pequena maioria enriqueceu. A grande maioria dos chineses continua muito pobre. No passado, os pobres não se preocupavam muito com a democracia mas isso mudou e hoje em dia preocupam-se muito! Compreendem que a sua pobreza decorre, em grande parte, do sistema social chinês".
 
A interdependência económica entre o Ocidente e a China aumenta diariamente. Constata alguma contradição na atitude ocidental perante a China?
"Se fosse uma relação entre dois parceiros normais não haveria qualquer problema. Mas a China é um país anormal. Nesse sentido, não estou satisfeito com os países ocidentais que desistiram de defender os direitos humanos por motivos comerciais, especialmente ao longo dos últimos dez anos".
 
As autoridades chinesas opuseram-se à atribuição do Prémio Sakharov 2008 a Hu Jia. Qual foi a reacção das autoridades chinesas quando recebeu o Prémio em 1996?
"Não sei porque na altura estava detido! Ao longo dos últimos anos, o governo chinês tem reagido firmemente a diversas vozes, como as de Hu Jia e Dalai Lama. É fácil compreender como são sensíveis a essas vozes e reagem de uma forma tão firme exactamente porque se sentem muito frágeis. Desde os Jogos Olímpicos – que para eles foi um fracasso – que perderam a auto-confiança, o que faz com que reajam de uma forma mais irracional.
 
Felizmente, apesar de os governos ocidentais ainda tentarem agradar ao governo chinês, muitas pessoas no Ocidente têm reagido efectivamente à tirania do regime chinês, o que pressiona o governo a considerar as reformas políticas ou, por outras palavras, permite que os reformadores do partido comunista encontrem um argumento para pressionar nesse sentido".
 
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Taslima Nasreen: "A Europa deve ser secular"

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Taslima Nasreen durante a entrevista

Taslima Nasreen durante a entrevista

Taslima Nasreen, laureada com o Prémio Sakharov em 1994, pagou um preço elevado pela sua dedicação à luta contra a opressão das mulheres e o fundamentalismo religioso. Obrigada a abandonar o seu país, o Bangladesh, em 1999, esteve inicialmente exilada na Índia e continua a viver no exílio na Suécia. Antes da cerimónia de entrega do Prémio Sakharov 2008, esta médica de 46 anos falou-nos das ameaças causadas pelo extremismo religioso.
 
Em que medida pode o extremismo religioso representar uma ameaça para os cidadãos?
"O extremismo religioso é uma grande ameaça em todo o mundo, especialmente no que se refere ao extremismo islâmico, que pretende fazer com que a sociedade regresse à idade das trevas, quando as mulheres não dispunham de quaisquer direitos ou liberdades e eram utilizadas como escravas, objectos sexuais e máquinas de gestação de crianças.
 
Os fundamentalistas islâmicos estão interessados numa sociedade que isente as mulheres de quaisquer direitos ou liberdades. Acreditam que existem dois mundos: o mundo dos infiéis e o mundo islâmico, e querem transformar a terra dos infiéis na terra dos islâmicos, para que todo o mundo passe a ser a terra dos islâmicos. Trata-se de uma grande ameaça ao pluralismo de pensamento. Os fundamentalistas religiosos não acreditam no individualismo e a lealdade ao grupo é uma das suas principais características.
 
Se nós, os liberais, os aceitarmos em nome do multiculturalismo, estaremos a cometer um grande erro. As culturas não são idênticas: algumas culturas violam os direitos humanos, os direitos das mulheres e a liberdade de expressão. Não devemos aceitar a tortura em nome da cultura, porque a tortura não é uma cultura. Se constatarmos que uma determinada cultura viola os direitos das mulheres, devemos rejeitar essa cultura".
 
E quanto ao terrorismo islâmico?
"O terrorismo islâmico é uma grande ameaça, não só para os países islâmicos, mas também para os países ocidentais, porque deixamos de estar seguros, seja onde for. Se não nos opusermos aos fundamentalistas islâmicos, não existirá liberdade nesta sociedade.
 
Alguns países europeus começaram a considerar a hipótese de introduzir a lei Sharia, o que é muito perigoso, porque a Europa deve ser secular. A lei islâmica é contrária à liberdade das mulheres. Devemos apoiar as pessoas que lutam pela igualdade e pela justiça e pelos direitos das mulheres em todo o mundo. Devemos lutar pela secularização dos estados muçulmanos. O caminho não deve ser para trás mas sim para a frente".
 
Pagou um preço elevado pela sua luta pelos direitos humanos. Qual foi o significado do Prémio Sakharov para si?
Paguei um preço elevado porque tive que abandonar o meu país e porque também tive que abandonar o país vizinho, a índia. O Prémio Sakharov reconheceu a minha luta e deu-me forças para continuar a defender os direitos e liberdades das mulheres. Mas não me permitiu viver na cidade ou no país onde gostaria de viver".
 
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Oswaldo Payá: "Dar voz ao nosso povo"

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Oswaldo Payá. Havana, 22 de Novembro de 2007.  ©BELGA/AFP PHOTO/ADALBERTO ROQUE

Oswaldo Payá

"Não podemos, não sabemos e não queremos viver sem liberdade" afirmou Oswaldo Payá, em nome do povo cubano, quando recebeu o Prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento em 2002. Em Dezembro de 2008 não lhe foi concedida autorização para viajar até Estrasburgo e participar nas celebrações do 20° aniversário do Prémio. Em entrevista telefónica, falou-nos da situação que se vive actualmente em Cuba.
 
Por que motivo não se pôde deslocar a Estrasburgo?
"Em Cuba, viajar para o estrangeiro não é um direito. O governo cubano estabeleceu um mecanismo muito complicado de concessão de autorizações de saída e de entrada. O governo não me deu autorização para tal".
 
Como está a evoluir o seu projecto?
"O Projecto Varela é uma petição à Assembleia Nacional que decorre de um direito constitucional, de acordo com o qual se 10.000 cidadãos apresentarem um projecto de lei, o mesmo tem de ser debatido. Em 2002 apresentámos 11.000 assinaturas e em 2003 apresentámos 25.000.
 
Neste momento, o Projecto Varela apela à realização de um referendo, para que os próprios cubanos possam decidir sobre a liberdade de expressão e de associação, e a libertação dos defensores dos direitos humanos. O Projecto Varela é a alternativa pacífica de defesa dos direitos dos cubanos, sem intervenção externa. No entanto, somos perseguidos, oprimidos e ameaçados. Os agentes de segurança entram em casa dos activistas e furtam as listas e as assinaturas".
 
Continua a ter esperança?
"Sim, continua a existir esperança e penso que a única coisa que o governo faz – a propaganda, a repressão e as perseguições – é acabar com essa esperança. Esperamos que as pessoas olhem para Cuba com solidariedade e percebam que existem 11 milhões de seres humanos que nunca escolheram a opressão, um regime fechado, um governo eterno, o totalitarismo, pois tudo isto foi imposto. Queremos usufruir dos direitos de que todos os seres humanos devem usufruir".
 
O que espera da União Europeia?
"O que os governos da União Europeia, a Comissão, as instituições sociais e religiosas, as organizações não governamentais e, sobretudo, os cidadãos podem fazer é apelar à libertação dos prisioneiros políticos em Cuba e apoiar, moral e politicamente, todas as iniciativas pacíficas como o Projecto Varela, porque apelam à liberdade de expressão e ao respeito pelos direitos das pessoas.
 
Se, por um lado, a União Europeia – e especialmente o Parlamento Europeu – encontrou espaço para divulgar a voz do povo cubano, por outro lado existem países na UE que permanecem silenciosos quanto à dimensão das violações dos direitos humanos, para manterem uma boa relação com o governo cubano.
 
O respeito pela nossa soberania e auto-determinação só pode ser genuíno se os direitos dos cubanos forem respeitados".
 
Como prevê a situação de Cuba dentro de dez anos?
"Acredito que o futuro de Cuba, a curto e a longo prazo, está a ser decidido neste momento. Acreditamos na possibilidade de uma transição pacífica. O mundo também deve dar um passo, sem intervir nem impor embargos ou bloqueios, mas apelando aberta e publicamente ao respeito pelos direitos de todos os cubanos.
 
Acreditamos que é possível manter a saúde e a educação gratuitas, enquanto direitos. Temos uma visão de esperança e acreditamos que os nossos filhos e todas as crianças do mundo poderão viver num mundo mais saudável, verde, fraterno e livre."
 
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O impacto do Prémio Sakharov para Aung San Suu Kyi

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Zoya Phan, representante de Aung San Suu Kyi

Zoya Phan, representante de Aung San Suu Kyi

Aung San Suu Kyi, líder democrática birmanesa e Prémio Sakharov 1990 encontra-se em prisão domiciliária há 12 anos, impossibilitada de ver a família e os amigos, sem telefone e sujeita à inspecção da correspondência. Apesar de em Dezembro de 2008 não ter podido comparecer na cerimónia dedicada ao 20° aniversário do Prémio Sakharov, Aung San Suu Kyi sente-se mais segura depois de ter recebido o Prémio, afirmou a sua representante na cerimónia, Zoya Phan.
 
Qual foi o impacto do Prémio Sakharov para Aung San Suu Kyi?
"A atribuição do Prémio Sakharov foi um reconhecimento do trabalho e das actividades desenvolvidas por Aung San Suu Kyi na promoção e defesa da democracia e dos direitos humanos, mas também lhe deu mais segurança e conferiu-lhe um estatuto internacional mais relevante, além de ter colocado a Birmânia na agenda internacional".
 
Este ano o Prémio Sakharov foi atribuído a um dissidente chinês que se encontra detido. Existem semelhanças entre as situações de Aung San Suu Kyi e de Hu Jia?
"Penso que o Prémio Sakharov vai ampliar o estatuto internacional do dissidente chinês e conferir-lhe mais segurança, tal como aconteceu com Aung San Suu Kyi, que se encontra em regime de prisão domiciliária na Birmânia".
 
Os dissidentes sentem-se mais seguros com o Prémio Sakharov?
"Sim, na medida em que o regime fica mais atento ao que se diz no exterior sobre a Birmânia. Também receiam as intervenções internacionais e é por isso que qualquer coisa que façamos durante o exílio tem impacto na sua posição".
 
Como descreve a situação na Birmânia?
"A situação actual da Birmânia é muito grave e triste: o respeito pelos direitos humanos continua a degradar-se de dia para dia. Em Setembro de 2007, quando os monges budistas saíram para a rua apelando à mudança, à democracia, à defesa dos direitos humanos e à liberdade, o regime disparou sobre os manifestantes, prendeu centenas de pessoas e matou outras tantas. Em Maio de 2008, quando o ciclone Nargis atingiu a Birmânia, milhares e milhares de pessoas morreram e o regime bloqueou deliberadamente o auxílio humanitário aos sobreviventes que se encontravam na região afectada pelo ciclone".
 
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D. Zacarias Kamwenho: "O exemplo de Angola pode ajudar outros países"

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D. Zacarias Kamwenho

D. Zacarias Kamwenho

D. Zacarias Kamwenho, Arcebispo angolano com um papel relevante no processo de paz em Angola, recebeu o Prémio Sakharov em 2001. Em entrevista exclusiva, D. Zacarias Kamwenho falou-nos da situação actual do país, do contributo do Prémio Sakharov para a defesa das suas causas e do exemplo que Angola pode dar a outros países.
 
Como descreve a situação actual de Angola no que se refere aos processos de reconciliação e democratização?
"Vivemos em paz há seis anos e temos consciência de todas as consequências nefastas da guerra. Procuramos uma reconciliação efectiva, porque aqueles que no passado lutavam entre si hoje tentam trabalhar juntos e aqueles que se consideravam inimigos no passado tentam agora trabalhar juntos. Os efeitos da paz são visíveis e sabemos que todos trabalhamos para essa paz".
 
O Prémio Sakharov ajudou-o?
"O Prémio Sakharov ajudou-me muito, tal como tenho dito. Fui o segundo africano, depois de Nelson Mandela, a receber o Prémio Sakharov, e isso teve impacto. Fui o segundo laureado de expressão portuguesa, depois de Xanana Gusmão, o que também teve impacto. Além disso, fui o primeiro eclesiástico a receber o Prémio Sakharov. O impacto do Prémio tem-me permitido ajudar as pessoas a compreender que a liberdade de pensamento é um valor que deve ser preservado. O Prémio Sakharov é uma referência que ajuda as pessoas a compreender que existem valores que devem ser preservados".
 
Qual é a sua missão actual?
Sou Presidente da Comissão Episcopal de Justiça e Paz da Conferencia Episcopal de Angola, que tem por objectivo promover a paz. Tenho trabalhado com os meus colegas em todo o país. Promovemos conferências e encontros e tentamos sempre promover uma reconciliação efectiva. A Comissão para a Justiça Económica tem funcionado bem e o governo tem agradecido as nossas investigações, destinadas a estabelecer uma justiça social efectiva, porque sabemos que a justiça social é a melhor forma de consolidar a paz".
 
Poderá o processo de reconciliação de Angola servir de exemplo a outros países africanos?
"Penso que sim. Quando Jonas Savimbi morreu, algumas pessoas queriam acabar com todos os apoiantes de Savimbi, mas o Presidente de Angola disse que "não, se temos uma vitória, essa vitória pertence a todos os angolanos e não devemos perseguir ninguém". A partir de então não houve mais perseguições aos apoiantes da UNITA e hoje todos os angolanos fazem esforços em nome da paz. Angola é um exemplo que deve ser utilizado pelos outros países em guerra, como é o caso dos países dos Grandes Lagos. A sua guerra é parecida com a nossa no que se refere às condições que tivemos que enfrentar e ultrapassar. O exemplo de Angola pode ajudar outros países em termos de diálogo, compreensão e visão do futuro".
 
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As Mães da Praça de Maio: "Os nossos filhos deram-nos vida"

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Hebe de Bonafini, "Mãe da Praça de Maio"

Hebe de Bonafini, "Mãe da Praça de Maio"

Durante a "Guerra Suja" argentina, que decorreu entre 1976 e 1983, o governo militar raptou, torturou e matou os seus opositores políticos, entre os quais muitos jovens. Desde 1977 que um grupo de mães de filhos desaparecidos começou a encontrar-se na Praça de Maio, em Buenos Aires, todas as quintas-feiras, usando lenços brancos, em memória dos filhos. No Natal de 2008 perfizeram a 1600ª marcha. Hebe de Bonafini, uma Mãe da Praça de Maio, falou-nos sobre a importância deste movimento.
 
Por que aderiu às Mães da Praça de Maio?
"Nós não contamos as nossas histórias pessoais porque nesse caso as histórias das pessoas mais activas seriam mais conhecidas. Os nossos filhos foram raptados nas ruas, na escola, no trabalho. Foram espancados e torturados à nossa frente.
 
Foi uma coisa terrível, que deixou um enorme vazio, uma ferida que nunca poderá sarar. Perdi a minha família toda em 5 anos e só a minha filha e a minha mãe escaparam.
 
Mas tivemos a força suficiente para continuar. Deixámos as lágrimas em casa e fomos para a rua lutar pelos nossos filhos".
 
O que conseguiram nestes 32 anos e o que falta conseguir ainda?
"Ninguém falava do que estava a acontecer. A Argentina parecia um país fantástico. As Mães saíram à rua para dizer ao mundo inteiro o que é que se estava a passar. Organizámos um ficheiro com a identificação dos opressores e cada mãe transformou-se num detective privado. Com este governo conseguimos abolir a legislação condescendente e dar início aos julgamentos.
 
Também nos envolvemos na educação política e abrimos uma universidade. Temos uma publicação, uma biblioteca e uma estação de rádio. Desenvolvemos um programa de alojamento que permite às pessoas construírem as suas próprias casas e que está a ser utilizado por homens que viviam do roubo e mulheres que comiam lixo. Abrimos jardins-de-infância e escolas para os seus filhos.
 
Penso que conseguimos alcançar diversos resultados e sobretudo transmitimos ao mundo a mensagem de que a vida desafia sempre a morte. Eles atiraram os nossos filhos ao rio, queimaram-nos, mataram-nos a tiro... mas não nos conseguiram vencer. Porque existem outros jovens que lutam e relatam os acontecimentos. Os nossos filhos deram-nos vida. Neste momento estamos a deixar tudo nas mãos dos jovens".
 
O Prémio Sakharov ajudou-vos?
"O Prémio Sakharov protegeu-nos, salvou-nos a vida, ajudou-nos a sensibilizar o mundo para esta questão. O dinheiro ajudou-nos a abrir a primeira biblioteca e utilizámo-lo em educação, formação, na promoção da literacia e da escolaridade mínima".
 
Antropólogos forenses confirmaram recentemente que foram encontrados mais de 10.000 fragmentos de ossos humanos num antigo centro de detenção, o que confirma os testemunhos dos sobreviventes.
"Não são necessários mortos para confirmar os testemunhos. Não aceitamos a exumação dos corpos porque nem todos aparecerão. Muitos foram atirados ao rio e muitos foram queimados. Não aceitamos compensações financeiras porque aquilo que deve ser reparado pela justiça não pode ser compensado com dinheiro. E também não aceitamos tributos póstumos, como placas de homenagem. Os nossos filhos continuam vivos, como antes. Socializámos a maternidade e agora somos mães de todos, incluindo dos anónimos".
 

Para saber mais :

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Repórteres sem fronteiras: "Não há nada a celebrar" na liberdade de imprensa mundial

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Olivier Basille

Olivier Basille

A Associação Repórteres sem Fronteiras recebeu o Prémio Sakharov em 2005, pelo trabalho desenvolvido na defesa da liberdade de imprensa em todo o mundo. Em Dezembro de 2008, durante a celebração do 20° aniversário do Prémio, Olivier Basille esteve em Estrasburgo, onde representou a Associação. Em entrevista exclusiva falou-nos da importância do Prémio Sakharov e do estado actual da liberdade de imprensa no mundo.
 
Qual a importância do Prémio Sakharov?
"O facto de sermos reconhecidos por uma instituição como o Parlamento Europeu representa, além de uma grande honra, a possibilidade de visitar outras instituições europeias, parlamentares e interlocutores internacionais, para lhes dizermos "não estamos aqui apenas como uma organização que vos aborrece, mas também com a legitimidade do Parlamento Europeu, que reconhece aquilo que fazemos e a sua utilidade.
 
Tomámos a iniciativa de criar a rede Sakharov porque, após 20 anos, temos vinte potenciais embaixadores e essa rede pareceu-nos uma força suplementar possível. Nem sempre será fácil e por vezes não estaremos todos de acordo. Poderemos ficar muito enervados, mas continuaremos a apertar as mãos.
 
Este ano celebra-se o 60° aniversário da Declaração Universal dos Direitos do Homem mas, honestamente, não há nada a celebrar em matéria de liberdade de expressão. Não só não se registou nenhuma evolução nos países que referenciamos há 40 anos, como também se verificou um retrocesso na União Europeia e nos Estados Unidos da América".
 
A Internet mudou muito a vossa actividade?
"Hoje em dia, a Internet representa a capacidade de elaborar campanhas publicitárias num quarto do tempo. Enviamos um ficheiro a 20.000 pessoas, um bom potencial de mobilização, sem contar com as diversas fontes de informação que a Internet disponibiliza.
 
A Internet permitiu a algumas pessoas falar de uma forma que era impossível no passado e esperamos que no futuro deixe de haver censura na China, na Síria, na Arábia Saudita ou em qualquer outro local, através, por exemplo, de programas que lhes permitam ultrapassar os bloqueios efectuados na Internet. A rede Sakharov também tem trabalho a desenvolver com os deputados europeus".
 
Quais são, actualmente, os pontos geográficos "quentes" da vossa actividade?
"Os pontos quentes são o Iraque e o Afeganistão, que continuam a ser os locais mais perigosos para a imprensa e não falo apenas da imprensa ocidental. Porque quem paga o preço elevado são os jornalistas árabes que nos enviam imagens.
 
A situação da Eritreia também nos preocupa muito porque é um país de que nunca se fala mas que se encontra numa situação pior do que a Coreia do Norte e para o qual gostaríamos de chamar a atenção. Seria importante que o Parlamento Europeu se interessasse pela situação naquele país.
 
Outra prioridade dos Repórteres sem Fronteiras é a rede do Médio Oriente. Os problemas que existem no Irão, na Síria e no Afeganistão são graves. Um jornalista condenado à morte viu a sua pena reduzida a 20 anos de prisão. Que evolução! O seu crime? Ter pensado de uma forma diferente.
 
Nesse sentido, as prioridades são infelizmente fixadas pela actualidade".
 
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