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Processo : 2006/2130(INI)
Ciclo de vida em sessão
Ciclo relativo ao documento : A6-0036/2007

Textos apresentados :

A6-0036/2007

Debates :

PV 28/03/2007 - 19
CRE 28/03/2007 - 19

Votação :

PV 29/03/2007 - 8.13
Declarações de voto

Textos aprovados :

P6_TA(2007)0100

Textos aprovados
PDF 181kWORD 100k
Quinta-feira, 29 de Março de 2007 - Bruxelas
Futuro do futebol profissional na Europa
P6_TA(2007)0100A6-0036/2007

Resolução do Parlamento Europeu, de 29 de Março de 2007, sobre o futuro do futebol profissional na Europa (2006/2130(INI))

O Parlamento Europeu,

  Tendo em conta o Relatório de Helsínquia, de 10 de Dezembro de 1999(1), e a Declaração de Nice, de 8 de Dezembro de 2000(2), sobre as características específicas do desporto e a sua função social na Europa,

  Tendo em conta os artigos 17º e III-282º do Tratado que estabelece uma Constituição para a Europa (Tratado Constitucional),

  Tendo em conta a iniciativa da presidência do Reino Unido relativa ao futebol europeu, de que resultou no estudo independente sobre o desporto europeu ("Independent European Sport Review 2006"),

  Tendo em conta a jurisprudência do Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias (Tribunal de Justiça) e do Tribunal de Primeira Instância, bem como as decisões da Comissão, em questões relacionadas com o desporto,

  Tendo em conta o artigo 45º do seu Regimento,

  Tendo em conta o relatório da Comissão da Cultura e da Educação e os pareceres da Comissão dos Assuntos Económicos e Monetários, da Comissão do Emprego e dos Assuntos Sociais, da Comissão do Mercado Interno e da Protecção dos Consumidores e da Comissão dos Assuntos Jurídicos (A6-0036/2007),

A.  Considerando que a Comissão sublinhou, no âmbito do Relatório de Helsínquia, a necessidade da existência de uma parceria entre os organismos que regem o futebol e os poderes públicos, para que a modalidade seja bem administrada, no pleno respeito da natureza auto-reguladora do desporto profissional;

B.  Considerando que o desporto europeu, em geral, e o futebol, em particular, são uma parte inalienável da identidade, da cidadania e da cultura europeias, e que o modelo do futebol europeu ‐ caracterizado por competições desportivas abertas, numa estrutura piramidal em que várias centenas de milhar de clubes amadores e milhões de voluntários e de jogadores formam a base para os clubes profissionais de topo ‐ constitui o resultado de uma longa tradição democrática e do apoio popular da sociedade no seu todo;

C.  Considerando que o futebol desempenha um importante papel social e educativo, constituindo um instrumento eficaz de inclusão social e de diálogo multicultural, e que necessita de protagonizar um meio activo para combater a discriminação, a intolerância, o racismo e a violência, já que são numerosos os incidentes com esta motivação que continuam a ocorrer no interior e em torno dos estádios, e considerando que os clubes e as ligas profissionais de futebol têm também um papel social e cultural de grande importância nas respectivas comunidades locais e nacionais;

D.  Considerando que o futebol profissional tem uma dimensão económica e uma vertente não económica;

E.  Considerando que os aspectos económicos do futebol profissional estão sujeitos ao direito comunitário e que a jurisprudência reconhece a especificidade do desporto, bem como o papel social e pedagógico desempenhado pelo futebol na Europa;

F.  Considerando, assim, que incumbe às autoridades políticas e desportivas nacionais e europeias garantir que a aplicação do direito comunitário ao futebol profissional não comprometa as suas diferentes funções sociais e culturais, desenvolvendo um quadro jurídico apropriado que respeite plenamente os princípios fundamentais da especificidade do futebol profissional, da autonomia dos seus órgãos e da subsidiariedade;

G.  Considerando que, à luz da importância crescente do desporto nas diferentes políticas da União Europeia (liberdade de circulação, reconhecimento das qualificações, concorrência, políticas da saúde e do audiovisual), foi decidido incluir o desporto no Tratado Constitucional como domínio de competência da União Europeia (ao abrigo dos artigos 17º e III-282º); considerando, além disso, que o Tratado Constitucional não foi ratificado por todos os Estados-Membros e que a Declaração de Nice sobre o desporto na União Europeia não é, por si só, suficiente para se lidar com os problemas actuais, que transcendem as fronteiras das nações e que, como tal, exigem soluções à escala europeia;

H.  Considerando que a crescente profissionalização e comercialização do desporto, em geral, e do futebol, em particular, conferiu relevância acrescida ao direito comunitário neste sector, facto que se reflecte no número crescente de casos pendentes no Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias e na própria Comissão,

   o que, por um lado, agravou profundamente o problema da incerteza jurídica, pelo que os sectores afectados consideram cada vez mais inadequada uma abordagem casuística, ponto de vista que se encontra também documentado no estudo "Independent European Sport Review 2006", encomendado por alguns ministros do desporto dos Estados-Membros e recentemente publicado,
   para além de que não é claro, por outro lado, se a norma da União das Associações Europeias de Futebol (UEFA) que impõe uma quota mínima de jogadores nacionais, factor de extrema importância para a promoção de jovens talentos, poderia ser declarada como estando em conformidade com o artigo 12º do Tratado CE, caso fosse objecto de análise pelo Tribunal de Justiça;
   I. Considerando que, em consequência da referida incerteza jurídica, não é claro o grau de autonomia de que dispõem estes organismos de auto-regulação, como a UEFA, as federações e as ligas nacionais, nem até que ponto eles se encontram vinculados, no exercício do seu direito de auto-regulação e na execução da sua função reguladora, à observância de determinados princípios do direito comunitário, como a livre circulação, a não discriminação e as normas da concorrência;

J.  Considerando que esta incerteza jurídica é problemática, não só em termos económicos, mas também, e em particular, no que se refere à função social, cultural e educativa do futebol, reduzindo simultaneamente o interesse dos adeptos, enfraquecendo os esforços de fomento da modalidade e minando o princípio do "fair play";

K.  Considerando que foi tomada uma decisão no sentido de incluir o desporto no Tratado Constitucional como domínio de competência da União Europeia (artigos 17° e III-282°), a fim de conferir poderes à UE para desenvolver a respectiva dimensão comunitária;

L.  Considerando que o futebol profissional não funciona como um sector económico típico e os clubes de futebol profissional não podem ser geridos em condições de mercado idênticas às dos outros sectores da economia, devido à interdependência dos adversários no campo desportivo e ao equilíbrio competitivo indispensável à incerteza dos resultados, e considerando que os vários intervenientes na modalidade, incluindo adeptos, jogadores, clubes, ligas e federações, não são consumidores ou empresas normais;

M.  Considerando que o futuro do futebol profissional na Europa está ameaçado pela crescenteconcentração da riqueza económica e da força desportiva;

N.  Considerando que a importância crescente das receitas provenientes da venda dos direitos de transmissão pode abalar o equilíbrio competitivo entre clubes de diferentes países, na medida em que essas receitas são, em grande parte, determinadas pela dimensão dos mercados nacionais de radiodifusão;

O.  Considerando que, de há várias décadas a esta parte, o futebol profissional se caracteriza cada vez mais por uma dimensão supranacional, sendo também afectado pela existência de diferentes regimes regulamentares e legislativos internacionais;

P.  Considerando que a existência de legislações e de critérios de licenciamento divergentes na Europa produz condições de concorrência económica e juridicamente desiguais e que esta situação afecta gravemente a competição desportiva livre e leal entre as equipas, tanto ao nível das ligas europeias, como no plano das selecções nacionais;

Q.  Considerando que a participação das mulheres no desporto, em geral, ainda é muito inferior à dos homens, que as mulheres continuam a estar sub-representadas nos órgãos de decisão das entidades desportivas e que persistem casos de discriminação sexual no capítulo da remuneração das atletas profissionais;

R.  Considerando que o acórdão proferido no processo Bosman, em 1995, desencadeou um efeito positivo nos contratos e na mobilidade dos jogadores, embora tenha deixado por resolver múltiplos problemas sociais relacionados com questões do âmbito do emprego; considerando que o referido acórdão acarretou também diversas consequências negativas para a modalidade, de que se destacam o poder crescente da parte dos clubes mais ricos para recrutar os melhores jogadores, a ligação, também ela, cada vez mais forte entre o poder financeiro e o êxito desportivo, a espiral inflacionista dos salários dos jogadores, a redução das oportunidades de os jogadores formados a nível local expressarem o seu talento ao mais alto nível e a diminuição do grau de solidariedade entre o desporto profissional e o desporto amador;

S.  Considerando que muitas actividades criminosas (resultados combinados, corrupção, etc.) são consequência da espiral de despesas, da inflação dos salários e da consequente crise financeira que muitos clubes enfrentam;

T.  Considerando que a Comissão confirmou, mediante decisões formais, a compatibilidade da venda conjunta dos direitos de transmissão com a legislação comunitária em matéria de concorrência,

Contexto geral

1.  Sublinha o seu apego ao modelo do futebol europeu, com a sua relação simbiótica entre futebol amador e profissional;

2.  Chama a atenção para a importância de estruturas nacionais articuladas em pirâmide típicas do futebol europeu, que fomentam a descoberta de talentos na base e o espírito de competição, visto as competições nacionais serem também a via de acesso às competições europeias, pelo que cumpre estabelecer um equilíbrio adequado entre o futebol praticado a nível nacional e o futebol disputado a nível europeu, a fim de permitir que as ligas e as associações da modalidade cooperem de forma eficaz;

3.  Reconhece a necessidade da realização de um esforço conjunto dos organismos que regem o futebol e dos órgãos políticos de decisão, a vários níveis, para contrariar certas tendências negativas, como o comercialismo exacerbado e a concorrência desleal, e para garantir um futuro auspicioso ao futebol profissional, com competições cerradas, um elevado grau de identificação dos adeptos com os clubes e uma grande afluência de público às competições, através de iniciativas como, por exemplo, a disponibilização de bilhetes a preço especial para jovens e famílias, designadamente, nos grandes jogos internacionais;

4.  Congratula-se com o trabalho "Independent European Sport Review 2006", acima referido, e com o estudo encomendado pelo Parlamento Europeu sobre "desporto profissional no mercado interno", e exorta os Estados-Membros, as entidades europeias e nacionais que regem o futebol e a Comissão, no seu próximo Livro Branco sobre o desporto, a prosseguirem os esforços, iniciados pela Presidência britânica, para avaliar a necessidade de se adoptar medidas políticas que tomem em devido respeito o princípio de subsidiariedade, tendo em conta os princípios e recomendações essenciais que constam do referido documento;

5.  Exprime o seu desejo de evitar que o futuro do futebol profissional na Europa seja determinado exclusivamente numa base casuística e de reforçar a certeza jurídica;

6.  Concorda com o princípio básico de que os aspectos económicos do desporto profissional não se enquadram no âmbito de aplicação do Tratado CE, atendendo à especificidade do desporto, tal como foi definida no âmbito da Declaração de Nice, e entende, a este respeito, que os efeitos restritivos decorrentes de uma regra desportiva devem ser compatíveis com o direito comunitário, desde que essa regra persiga o objectivo legítimo relacionado com a natureza e a finalidade do desporto e os seus efeitos restritivos sejam inerentes à perseguição desse objectivo e proporcionais a ele;

7.  Exorta a Comissão a elaborar directrizes acerca do modo de aplicação deste princípio e a encetar um processo de consultas com as autoridades do futebol europeias e nacionais, conducente à elaboração de um acordo-quadro formal entre a União Europeia e os organismos europeus e nacionais que regem o futebol;

8.  Solicita à Comissão que, em colaboração com o Parlamento, os Estados-Membros e os organismos nacionais e europeus que regem o futebol e outros interessados, inclua os princípios e recomendações constantes da presente resolução no seu próximo Livro Branco sobre esta temática e elabore um plano de acção para o desporto europeu em geral e o futebol, em particular, que defina as questões a tratar pela Comissão e os instrumentos a utilizar, com o objectivo de reforçar a certeza jurídica e condições de concorrência equitativas para o futebol profissional;

9.  Solicita à Comissão que prossiga um diálogo estruturado com os organismos que regem o futebol, incluindo as federações e ligas nacionais, e outras partes interessadas, com vista a ultrapassar o problema da incerteza jurídica;

10.  Congratula-se com o êxito e o enorme interesse suscitado pelo futebol feminino na Europa, salientando o crescente significado de que ele se reveste em termos sociais;

Governação

11.  Insta todos os organismos responsáveis pela gestão do futebol a definirem e coordenarem melhor as suas competências, responsabilidades, funções e processos decisórios, a fim de aumentarem a sua democraticidade, transparência e legitimidade, em benefício do sector no seu conjunto; convida a Comissão a elaborar directrizes que estabeleçam as condições em que a auto-regulação é legítima e adequada, no devido respeito pela lei nacional e com a devida atenção ao apoio financeiro às federações e às associações, cujo objectivo é a formação e o desenvolvimento dos jovens jogadores e das selecções nacionais;

12.  Exorta a UEFA a associar ao processo decisório as organizações representativas dos jogadores, clubes e ligas;

13.  Entende que uma melhor governação do sector, conducente a uma auto-regulação mais concertada a nível nacional e europeu, reduzirá a tendência para se recorrer à Comissão e ao Tribunal de Justiça;

14.  Reconhece a competência e a legitimidade dos tribunais do desporto, na medida em que providenciam pelo direito das pessoas a que a sua causa seja julgada de forma equitativa, tal como estabelecido no segundo parágrafo do artigo 47º da Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia;

15.  Considera que o recurso à jurisdição dos tribunais comuns, mesmo quando improcedente em matérias de Justiça desportiva, não configura qualquer ilícito disciplinar; condena, por isso, as decisões arbitrárias da Federação Internacional de Futebol (FIFA) a este respeito;

16.  Solicitando embora à UEFA e à FIFA que consagrem nos seus Estatutos o direito de recurso a um tribunal ordinário, reconhece todavia que o princípio de auto-regulação implica e justifica as estruturas de modelo desportivo europeu e os princípios fundamentais que regem a organização de competições desportivas, incluindo disposições anti-doping e sanções disciplinares;

17.  Insiste em que o princípio da proporcionalidade é essencial ao exercício dos poderes de auto-regulação dos organismos responsáveis pela gestão do futebol no seu conjunto e solicita à Comissão que garanta que este princípio seja aplicado nas acções judiciais relativas ao desporto;

18.  Insta a FIFA a aumentar a sua democracia interna e a transparência das suas estruturas;

19.  Considera que o processo Charleroi, pendente no Tribunal de Justiça Europeu, poderá afectar gravemente a capacidade de participação nas competições internacionais das associações de futebol de pequena e média dimensão, ameaçando o indispensável investimento de base no futebol levado a cabo pelas federações nacionais; a este respeito, entende que os clubes devem disponibilizar os seus jogadores para as selecções nacionais sem direito a compensação; exorta a UEFA e a FIFA, em colaboração com os clubes e ligas europeus, a chegar a acordo sobre as condições aplicáveis aos jogadores lesionados em representação dos seus países e sobre o sistema de seguro colectivo que deverá ser instituído;

20.  Apoia o sistema de licenciamento de clubes da UEFA, que visa garantir condições de concorrência equitativas entre os clubes e contribuir para a sua estabilidade financeira, e convida a UEFA a aprofundar, em conformidade com o direito comunitário, o referido sistema, a fim de salvaguardar a transparência financeira e uma gestão adequada;

21.  Recomenda uma campanha enérgica das autoridades políticas e desportivas, quer a nível nacional, quer a nível europeu, para assegurar uma maior transparência e uma gestão sã do futebol profissional na Europa;

22.  Apoia os esforços tendentes à protecção da integridade do jogo através da superação dos conflitos de interesses entre os intervenientes de maior projecção, sejam clubes, sejam organismos responsáveis pela gestão do futebol;

23.  Convida a Comissão a ponderar, em concertação com os organismos de gestão, ligas e clubes de futebol, a introdução de um estatuto jurídico comunitário para as sociedades anónimas desportivas, a fim de ter em conta as actividades económicas dos grandes clubes de futebol, preservando a especificidade das suas características desportivas; um tal estatuto permitiria o estabelecimento de regras de controlo das actividades económicas e financeiras das referidas sociedades, bem como a participação dos adeptos e da comunidade;

24.  Exorta os Estados-Membros e os organismos que regem o futebol a promoverem activamente o papel social e democrático dos adeptos que apoiam os princípios da competição leal (fair play), sustentando a criação e o desenvolvimento de fundos fiduciários de adeptos (em reconhecimento da sua responsabilidade), que poderiam ser envolvidos na propriedade e gestão dos clubes, através da nomeação de um Provedor de Justiça para o futebol e, concretamente, alargando à escala europeia o modelo do movimento directo dos adeptos (Supporters Direct);

25.  Solicita à UEFA que estude a maneira como as organizações de adeptos poderiam ser envolvidas, enquanto importantes interessados, quando estiverem organizadas a nível europeu, e a estudar a viabilidade de um órgão europeu afecto ao movimento directo dos adeptos (Supporters Direct);

26.  Considera que os futebolistas profissionais, os seus representantes nos sindicatos e os clubes e as ligas devem ser envolvidos de forma mais estreita na governação do futebol através de melhores formas de diálogo social;

Luta contra actividades criminosas

27.  Apoia os esforços dos organismos que regem o futebol a nível nacional e europeu no sentido de introduzirem maior transparência nas estruturas de propriedade dos clubes e solicita ao Conselho que adopte medidas de luta contra as actividades criminosas que proliferam no futebol profissional, como o branqueamento de capitais, as apostas ilegais, o doping, o falseamento de resultados e o fenómeno da prostituição forçada à margem dos grandes eventos futebolísticos;

28.  Salienta a necessidade de assegurar a plena observância da legislação em matéria de transparência e branqueamento de capitais por parte das entidades envolvidas no sector do futebol;

29.  Exorta os Estados-Membros a criarem mecanismos que estimulem a cooperação entre os clubes, as forças da ordem e as organizações representativas dos adeptos de futebol, a fim de pôr cobro às agressões e aos excessos dos "hooligans", bem como a outros comportamentos criminosos que possam ocorrer antes, depois e após os jogos de futebol e a procederem ao intercâmbio das melhores práticas;

30.  Exorta o Conselho a reforçar a coordenação de medidas preventivas e sanções respeitantes aos "hooligans", também no caso de jogos nacionais; neste contexto, convida o Conselho a dar aplicação à sua Decisão 2002/348/JAI relativa à segurança por ocasião de jogos de futebol com dimensão internacional e, se necessário, a aprovar medidas adicionais na sequência de recentes casos de violência ocorridos dentro e fora dos estádios de futebol;

31.  Lança um apelo aos Estados-Membros, às autoridades europeias do futebol, bem como às federações e ligas, no sentido de promoverem uma grande campanha europeia de sensibilização junto dos adeptos, tendo por objectivo conter a violência no interior e no exterior dos estádios;

O papel social, cultural e educativo do futebol

32.  Salienta a importância da formação através do desporto, bem como o potencial do futebol para ajudar os jovens socialmente vulneráveis a regressarem ao bom caminho, pelo que exorta os Estados-Membros, as federações nacionais, as ligas e os clubes a promoverem o intercâmbio das melhores práticas neste domínio;

33.  Solicita à Comissão e aos Estados-Membros que dêem também o seu apoio aos projectos de inclusão social realizados nos clubes de futebol;

34.  Exprime claramente o seu apoio às medidas da UEFA tendentes a promover a educação dos jovens jogadores, exigindo que cada equipa profissional tenha um número mínimo de jogadores formados nos escalões jovens do próprio clube e colocando um limite à dimensão dos plantéis; entende que estas medidas de incentivo são proporcionadas e exorta os clubes de futebol profissional a respeitarem escrupulosamente esta norma;

35.  Está convicto de que serão necessárias novas disposições com vista a assegurar que a iniciativa relativa aos jogadores formados nas escolas dos clubes não conduza ao tráfico de crianças, com alguns clubes a proporem contratos a jogadores muito jovens (com menos de 16 anos de idade);

36.  Sublinha que há que garantir aos jovens jogadores a possibilidade de receberem uma formação geral e profissional, a par das suas actividades e do treino nos clubes, e que os clubes devem garantir o regresso a casa em condições seguras dos jovens jogadores de países terceiros que não tenham logrado iniciar a sua carreira na Europa;

37.  Insiste em que as leis da imigração sejam sempre respeitadas no que diz respeito ao recrutamento de jovens talentos estrangeiros e exorta a Comissão a fazer face ao problema do tráfico de crianças, no contexto da Decisão-Quadro 2002/629/JAI do Conselho, de 19 de Julho de 2002, relativa à luta contra o tráfico de seres humanos(3), e/ou no contexto da implementação da Directiva 94/33/CE do Conselho, de 22 de Junho de 1994, relativa à protecção dos jovens no trabalho(4); sublinha que há que dar aos jovens jogadores a oportunidade de concluírem os graus da educação geral e da formação profissional, paralelamente às suas actividades de treino nos clubes; solicita o empreendimento de acções que impeçam a exclusão social dos jovens que acabem por não ser seleccionados;

38.  Solicita aos organismos que regem o futebol que se empenhem na luta contra o tráfico de seres humanos, através das seguintes medidas:

   assinatura de uma Carta Europeia da solidariedade no futebol, que vincule os signatários a respeitarem as boas práticas no que diz respeito à descoberta, ao recrutamento e ao acolhimento de jovens futebolistas estrangeiros;
   criação de um fundo de solidariedade destinado a financiar programas de prevenção nos países mais afectados pelo tráfico de seres humanos;
   revisão do artigo 19º do Regulamento da FIFA, relativo ao estatuto e à transferência de jogadores, no que diz respeito à protecção dos menores;

39.  Chama a atenção para o importante papel social e educativo dos centros de formação e para o papel vital que eles desempenham, quer no bem-estar dos clubes, quer no desenvolvimento dos talentos futebolísticos do futuro, e apoia a concessão de incentivos financeiros aos clubes que possuam centros de formação, desde que tais incentivos sejam compatíveis com as disposições do Tratado em matéria de ajudas públicas; solicita igualmente à Comissão que reconheça esse papel vital, ao desenvolver as linhas de orientação em matéria de ajudas públicas;

40.  Salienta a necessidade de se garantir a existência de condições exemplares para o desenvolvimento dos jovens jogadores e para a sua formação num espírito de honestidade e respeito pelas regras do "fair play";

41.  Convida os Estados-Membros a introduzir uma perspectiva de género em todas os aspectos da política desportiva, com o objectivo de continuar a reduzir a diferença ainda existente entre homens e mulheres, quer em termos de representação nos organismos desportivos, quer no plano das remunerações auferidas, quer ainda no que toca à participação efectiva no desporto, promovendo desta forma a igualdade no usufruto dos benefícios pessoais e sociais derivados da prática desportiva;

Questões sociais e do emprego

42.  Lamenta as diferenças existentes na legislação social e fiscal dos Estados-Membros, que provocam desequilíbrios entre os clubes, bem como a falta de disponibilidade dos Estados-Membros para resolverem este problema a nível europeu;

43.  Sublinha a importância do reconhecimento mútuo das qualificações profissionais obtidas noutro Estado-Membro para permitir a livre circulação de trabalhadores;

44.  Entende que a actual realidade económica em torno dos agentes dos jogadores impõe que os órgãos dirigentes do futebol, a todos os níveis, e após consulta à Comissão, melhorem as regras aplicáveis aos referidos empresários; a este respeito, exorta a Comissão a apoiar os esforços da UEFA no sentido de regulamentar a actividade dos agentes dos jogadores, se necessário, mediante a apresentação de uma proposta de Directiva relativa a esta categoria profissional, que contemple regras estritas e critérios de exame prévio ao exercício da actividade de agente de profissionais de futebol, a transparência nas transacções dos agentes, normas mínimas harmonizadas aplicáveis aos contratos dos agentes, um eficaz sistema fiscalizador e disciplinar a cargo dos órgãos dirigentes do futebol europeu, a introdução de um "sistema de licenciamento dos agentes" e de um registo dos agentes e o fim da "dupla representação" e dos pagamentos efectuados pelos jogadores aos agentes;

45.  Convida a UEFA e a Comissão a intensificarem os seus esforços com vista ao reforço do diálogo social ao nível europeu em matérias como a duração dos contratos, a fixação de prazos para as transferências, as possibilidades de rescisão dos contratos e as compensações para os clubes de formação, porquanto só dessa forma se poderá prevenir e ultrapassar as tensões entre os jogadores e as entidades empregadoras;

46.  Acolhe com satisfação a iniciativa da FIFPro, da UEFA e da Associação das Ligas Europeias de Futebol (EPFL), no sentido de promover os direitos dos jogadores através da garantia de que estes disponham sempre de contratos escritos respeitando determinados critérios mínimos;

47.  Reconhece a necessidade de implementar a legislação laboral de forma mais eficaz em todos os Estados­Membros, a fim de assegurar que os jogadores profissionais usufruam dos direitos que lhes assistem e cumpram as obrigações a que estão vinculados na sua qualidade de trabalhadores;

48.  Solicita à Comissão que apoie activamente as iniciativas e campanhas de luta contra o trabalho infantil nas indústrias relacionadas com o futebol e examine todas as possibilidades políticas e legais de assegurar o respeito dos direitos de todos os trabalhadores, incluindo as crianças;

Luta contra a violência, o racismo e outras formas de discriminação

49.  Solicita à Comissão, aos Estados-Membros e a todos os intervenientes no futebol profissional que assumam as suas responsabilidades na continuação e intensificação da luta contra o racismo e a xenofobia, condenando todas as formas de discriminação dentro e fora dos estádios, no pressuposto de que o direito juridicamente consagrado a um local de trabalho isento de racismo e de outras formas de discriminação também se aplica aos profissionais de futebol; apela a sanções mais severas contra qualquer tipo de acto discriminatório no futebol; solicita à UEFA, às federações e às ligas nacionais que apliquem as normas disciplinares de forma coerente, firme e coordenada, sem negligenciar a situação financeira dos clubes;

50.  Solicita, neste contexto, à Comissão, à UEFA e a outras partes interessadas que dêem seguimento à Declaração do Parlamento Europeu, de 14 de Março de 2006, sobre o combate ao racismo no futebol(5); felicita a UEFA e a FIFA, quer pela inclusão nos respectivos estatutos de sanções mais pesadas, quer pelas medidas adoptadas; aguarda ulteriores iniciativas de todos os parceiros envolvidos na modalidade;

51.  Solicita à Comissão, à UEFA e a outras partes interessadas que não deixem impunes outras formas de discriminação, tais como a discriminação em razão do sexo, da origem, da orientação sexual ou outra, dentro e fora dos estádios de futebol;

52.  Condena todas as formas de violência nos estádios de futebol, encoraja os Estados-Membros a darem aplicação às medidas mais rigorosas ao seu dispor a fim de reduzirem e eliminarem todas as formas de violência no relvado e manifesta o seu apoio às medidas da UEFA que visam erradicar essa violência;

A legislação em matéria de concorrência e o mercado interno

53.  Crê firmemente que a introdução de um sistema de controlo modulado dos custos pode ser uma forma de reforçar a estabilidade financeira e o equilíbrio competitivo entre as equipas, em especial, se for integrado num sistema actualizado de licenciamento dos clubes;

54.  Considera que o futebol deve garantir a interdependência dos participantes e a necessidade da incerteza dos resultados das competições, o que poderia servir de justificação às organizações desportivas para aplicarem no mercado um quadro específico para a produção e a venda de eventos desportivos; considera, no entanto, que este quadro específico não justifica uma derrogação automática às regras comunitárias em matéria de concorrência para qualquer actividade económica gerada pelo futebol profissional, atendendo ao peso económico cada vez maior dessas actividades;

55.  Exorta a Comissão a elaborar orientações claras sobre a aplicação dos auxílios estatais, indicando que tipo de ajudas públicas são legítimas e aceitáveis para fazer cumprir as missões social, cultural e educativa do futebol, por exemplo, no que respeita ao apoio financeiro ou de outra natureza concedido pelas entidades públicas para efeitos de construção ou modernização de estádios de futebol ou infra-estruturas afins;

56.  Exorta a Comissão e os Estados-Membros a cooperarem estreitamente com os organismos que regem o futebol nas esferas nacional, europeia e internacional, a fim de reflectirem sobre as consequências de uma possível liberalização do mercado de apostas mútuas e sobre mecanismos que assegurem o financiamento do desporto, em geral, e do futebol, em particular, prevendo medidas capazes de salvaguardar a integridade das competições futebolísticas a nível nacional e europeu;

57.  Reconhece a importância das marcas comerciais no sector do desporto, excepto se forem utilizadas para entravar a livre circulação de mercadorias;

58.  Lembra que existe frequentemente um desencontro entre a oferta e a procura de bilhetes para os principais eventos futebolísticos, que é benéfica para os patrocinadores, mas prejudicial para os consumidores; sublinha que os interesses dos consumidores devem ser plenamente tidos em conta no que respeita à distribuição de bilhetes e que a venda não discriminatória e equitativa de bilhetes deve ser garantida a todos os níveis; reconhece, contudo, que a distribuição de bilhetes pode, se for caso disso, ser limitada aos membros de associações de adeptos, às agências de viagens ou entidades afins, às quais seja possível aderir sem qualquer tipo de discriminação;

A venda de direitos de transmissão televisiva e a legislação em matéria de concorrência

59.  Defende que a venda colectiva de direitos para todas as competições é fundamental para a salvaguarda do modelo de solidariedade financeira do futebol europeu; é favorável à realização de um debate público e de uma análise mais exaustiva da Comissão sobre a questão de saber se este modelo deve ser adoptado à escala comunitária, quer nas competições europeias, quer nos campeonatos nacionais, como sugere o estudo independente sobre o desporto europeu de 2006 ("Independent European Sport Review 2006"); a esse respeito, solicita à Comissão que disponibilize uma avaliação pormenorizada do impacto económico e desportivo das suas decisões em matéria de direitos de transmissão, bem como da respectiva eficácia;

60.  Sublinha que a venda dos direitos de transmissão detidos pelas ligas nacionais de clubes em toda a Europa deveria respeitar escrupulosamente a legislação da União Europeia em matéria de concorrência, no respeito pela especificidade do desporto, e ser negociada e concluída de maneira transparente; feita esta reserva, é de opinião que o maior número possível telespectadores deverá ter acesso aos jogos de futebol, transmitidos de preferência por canais de televisão que difundem em sinal aberto;

61.  Salienta que será difícil sobrestimar os méritos do artigo 3º-A da Directiva 97/36/CE, sobre Televisão sem Fronteiras(6);

62.  Sublinha que é essencial para o futebol profissional que as receitas dos direitos televisivos sejam repartidos de forma justa, de molde a assegurar a solidariedade, quer entre profissionais e amadores, quer entre os clubes concorrentes na generalidade das competições; observa que a actual distribuição das receitas dos direitos televisivos da Liga dos Campeões, da UEFA, reflecte de modo muito marcado a dimensão dos mercados de televisão dos clubes dos diversos países, o que favorece os países grandes e diminui a força dos clubes dos países mais pequenos;

63.  Insta, portanto, a UEFA, juntamente com a Comissão, a prosseguir a sua análise dos mecanismos que assegurem um maior equilíbrio competitivo neste domínio por meio de uma redistribuição acrescida;

64.  Observa que a transmissão televisiva das competições desportivas é cada vez mais efectuada em canais codificados e pagos, tornando-se, assim, inacessível para alguns consumidores;

Doping

65.  Recomenda que a prevenção e o combate ao "doping" seja uma das principais preocupações dos Estados­Membros; preconiza uma política de prevenção e repressão da dopagem e salienta a necessidade de combater as irregularidades através dos controlos, da investigação, dos testes, de um acompanhamento a longo prazo realizado por médicos independentes e, simultaneamente, através da educação, da prevenção e da formação; exorta os clubes profissionais a adoptarem uma declaração de compromisso de luta contra o "doping" e a fiscalizarem a sua observância através do recurso a controlos internos;

o
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66.  Encarrega o seu Presidente de transmitir a presente resolução ao Conselho, à Comissão, aos governos e parlamentos dos Estados-Membros, à UEFA, à FIFA, à EPFL, ao Fórum Europeu de Clubes e à FIFPro.

(1) COM(1999)0644.
(2) Conclusões da Presidência, reunião do Conselho Europeu de Nice, de 7 a 9 de Dezembro de 2000, Anexo IV.
(3) JO L 203 de 1.8.2002, p. 1.
(4) JO L 216 de 20.8.1994, p. 12.
(5) JO C 291 E de 30.11.2006, p. 143.
(6) JO L 202 de 30.7.1997, p. 60.

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