Denis Mukwege: A violação é uma arma barata, acessível com um efeito devastador 

 
 

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Entrevista com Denis Mukwege, laureado com Prémio Sakharov 2014. ©Pietro Naj-Oleari  

A comunidade internacional não pode tolerar a utilização da violação como uma arma de guerra, defendeu Denis Mukwege, o mais recente laureado com o Prémio Sakharov.

O ginecologista é honrado pelo Parlamento Europeu pelo tratamento das mulheres vítimas de violência sexual na República Democrática do Congo. Leia a entrevista.


Como vai este prémio influenciar o seu trabalho?


Pensamos que o Parlamento Europeu compreendeu a gravidade da situação das mulheres nos conflitos. Esperamos encontrar soluções para acabar com a violação como arma de guerra, por vezes mesmo como estratégia de guerra.


Como muitos outros defensores dos direitos humanos, o Doutor Mukwege é um exemplo de perseverança em circunstâncias muito difíceis. O que o motiva? Alguma vez sentiu que deveria desistir?


Há dois anos fui atacado em casa, o meu segurança morto, as minhas filhas feitas reféns, e é verdade que nesse momento pensei que era demasiado difícil e que tinha que ter em conta as minhas obrigações familiares. Deixei o Congo, mas muito rapidamente regressei devido à força daquelas mulheres.


As mulheres e raparigas são vítimas de violência sexual em muitos dos conflitos atuais, da República Democrática do Congo à Síria. O que podemos fazer para as proteger?


Cada um de nós tem que compreender que a violação não é apenas uma relação sexual não consentida. Num ambiente de conflito, a violação é usada como arma de humilhação, uma arma que desumaniza as mulheres. Violar uma mulher ou uma criança em frente de toda a gente e destruir os seus órgãos genitais nada tem de sexual, é uma humilhação, uma destruição maldosa.


A violação tem consequências semelhantes ou ainda maiores que as armas convencionais. Em primeiro lugar, causa a deslocação em massa das populações. Em segundo lugar, tal como todas as armas clássicas, a violação destrói a sociedade do inimigo. Algumas destas mulheres já não vão poder ter filhos. E mesmo que possam, a sua fertilidade é muito reduzida. Em terceiro lugar, as consequências podem passar através de gerações. Estas mulheres vão continuar a viver e a contaminar outras pessoas da sua aldeia, se infectadas com uma doença sexualmente transmissível ou podem mais tarde transmitir a doença aos seus filhos. E as que ficam grávidas, vão dar à luz filhos sem filiação, o que também contribui para a destruição do tecido social.


A comunidade internacional não tolera a utilização das armas químicas, nucleares e biológicas. Nós, homens e mulheres, temos que exigir o mesmo para a violação, uma arma barata, acessível, mas que tem um efeito devastador.


Saiba o que faz o Parlamento para combater a desigualdade de género.