Dossier
 

Glossário da crise financeira

Assuntos económicos e monetários - 27-05-2010 - 16:27
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©BELGA/EPA/DAI KUROKAWA

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A crise financeira que teve início em 2008 com a falência do banco de investimento norte-americano Lehman Brothers alastrou-se a todo o mundo e transformou-se na pior crise económica desde a Grande Recessão dos anos 1930.

Este glossário pretende explicar, de uma forma tão simples quanto possível, os conceitos económicos mais referidos ao longo dos últimos meses e os mecanismos utilizados durante a crise.
 
 
REF.: 20100414FCS72750

Glossário da crise financeira

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  • Conceitos económicos básicos
  • Sequência de acontecimentos que deram origem à crise
Bolsa de Seul, Coreia do Sul ©BELGA/EPA/JEON HEON-KYUN

Bolsa de Seul, Coreia do Sul ©BELGA/EPA/JEON HEON-KYUN

Esta secção apresenta os conceitos económicos básicos regularmente utilizados pelos meios de comunicação social nos artigos sobre a crise. Os conceitos não são apresentados por ordem alfabética pois pretendem descrever, em forma de narrativa, a sequência de acontecimentos que deram origem à crise.
 
Excedentes e défices comerciais: um país tem excedentes comerciais quando exporta mais bens e serviços do que importa, ou seja, quando produz mais do que consome. Um país trem um défice comercial quando importa mais do que exporta, ou seja, quando há mais dinheiro a sair do país para pagar as importações do que dinheiro a entrar por via das exportações. No primeiro caso, o país é credor face ao resto do mundo e no segundo caso, o país é devedor.
 
Desequilíbrios globais na economia mundial: alguns países registam excedentes elevados e persistentes, de uma forma claramente insustentável, enquanto outros países registam défices elevados e persistentes, de uma forma claramente insustentável.
 
Países credores: com elevados excedentes comerciais, como é o caso da Alemanha, da China, do Japão e dos países exportadores de petróleo, estes países ganham mais com as exportações do que pagam pelas importações, pelo que os fundos excedentes são emprestados ao estrangeiro através dos mercados financeiros internacionais.
 
Países devedores: com elevados défices comerciais, como é o caso da Grécia e dos Estados Unidos da América, as exportações não são suficientes para pagar as importações e têm de recorrer a empréstimos juntos dos mercados financeiros internacionais.
 
Uma vez que o planeta Terra não estabelece relações comerciais com outros planetas, os excedentes existentes numa parte do mundo reflectem-se necessariamente em défices noutras partes do mundo. Nem todas as economias são capazes de exportar mais do que importar.
 
Os países com défice comercial absorvem essas exportações como importações. Dispondo de pouco dinheiro, têm de recorrer ao crédito dos países com excedentes. Trata-se de um negócio equivalente à concessão de um empréstimo para aquisição de uma viatura.
 
O recurso ao crédito equivale geralmente ao aumento da dívida privada, que corresponde às dívidas contraídas pelos consumidores e pelas empresas. Face à disponibilidade do excedente monetário dos grandes exportadores nos mercados financeiros internacionais, a baixo custo, os bancos e as outras instituições financeiras canalizam esse excedente para onde for mais necessário. As empresas e os consumidores que pretendem consumir mais do que produzem são o seu alvo mais óbvio.
 
Estes empréstimos dão origem ao crédito malparado, ou seja, a empréstimos que não são pagos integralmente ou em parte. Se um banco não receber todo o dinheiro que emprestou, torna-se difícil pagar o dinheiro que deve aos detentores dos depósitos, aos outros bancos e aos detentores de obrigações. Ao longo dos últimos anos, a banca emprestou muito dinheiro para crédito privado e construção imobiliária. O aumento do desemprego tem vindo a aumentar o crédito malparado nos empréstimos concedidos a particulares, o mesmo sucedendo com o sector imobiliário, uma vez que os agentes não conseguem vender os bens com os lucros previstos.
 
Crédito hipotecário de risco (subprimes): esteve na origem da crise e acabou por expor a fragilidade dos critérios aplicados pelos bancos na concessão de crédito. Os empréstimos hipotecários de risco foram concedidos a mutuários que só os poderiam pagar se os preços da habitação se mantivessem em alta, se a economia tivesse continuado a crescer e se as taxas de juro se tivessem mantido baixas. Estes pressupostos revelaram-se falsos, levando os mutuários ao incumprimento e os bancos a grandes perdas financeiras.
 
Excedentes e défices orçamentais: acontecem quando, num determinado ano, um governo recebe mais dinheiro em impostos do que gasta em bens e serviços (excedente) ou gasta mais do que recebe em impostos (défice). A má situação financeira da banca fez com que os governos e vissem obrigados a injectar milhares de milhões de euros nos bancos para cobrir as perdas resultantes do crédito malparado. Isto significa que, face à diminuição das receitas fiscais resultante da recessão, os orçamentos governamentais registaram elevados défices.
 
Dívida governamental ou dívida pública: a quantidade de dinheiro que um governo deve aos seus credores também aumentou. É igualmente designada como dívida pública, na medida em que, no final, é aos contribuintes que compete o seu pagamento. Se um governo gastar mais do que recebe em impostos, tem de recorrer a dinheiro suplementar, geralmente através da venda de bens públicos.
 
Obrigações: promessa feita pelo vendedor de uma obrigação – o governo, por exemplo – de retribuição, com juros, do dinheiro que foi emprestado pelos compradores dos títulos (bancos, fundos de pensões, etc.). A venda de obrigações permite satisfazer as necessidades de financiamento orçamental. Por outro lado, os investidores contam, obviamente, com o ressarcimento futuro, acrescido de juros, do dinheiro investido.
 
As taxas de juro aplicadas às obrigações públicas correspondem ao peso que o dinheiro emprestado terá para os contribuintes. Quanto mais arriscado for o mutuário mais elevada é a taxa de juro aplicada e mais elevada a quantia que o governo terá de reservar para pagar os juros em vez de a utilizar, por exemplo, em cuidados de saúde.
 
Spread da taxa de juro corresponde à diferença entre as taxas de juro aplicadas nas obrigações consideradas mais seguras (as obrigações alemãs na zona euro) e nas outras obrigações. Esta diferença é calculada de acordo com a fórmula 1%=100pb.
 
 
Refinanciar a dívida: pagar a dívida com mais dinheiro emprestado. Quando as obrigações estão a vencer, o governo pode emitir novas obrigações, utilizando as receitas para pagar aos investidores das obrigações anteriores. Os Tesouros Públicos de todo o mundo utilizam regularmente este mecanismo. O problema coloca-se quando os investidores não estão preparados para o refinanciamento por o considerarem demasiado arriscado, querendo apenas o seu dinheiro de volta.
 
Swaps de risco de incumprimento (CDS): oferecem aos investidores uma garantia contra incumprimento, ou seja, o risco de incumprimento é transferido para o vendedor do Swap. Se um país não conseguir cumprir, o detentor de um Swap de risco de incumprimento receberá sempre o seu dinheiro, sendo as perdas suportadas pela entidade vendedora. Os investidores podem adquirir estes Swaps e proteger-se contra perdas junto de diversas instituições financeiras, entre as quais bancos e fundos de investimento.
 
Swaps especulativos de risco de incumprimento: são swaps detidos por investidores que não detêm as obrigações subjacentes. Os especuladores podem adquirir CDS contando com o incumprimento por parte dos governos: quanto maior a probabilidade de incumprimento, maior o valor do CDS, que funciona como garantia contra o incumprimento. A União Europeia está a considerar proibir esta prática.
 
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Compreender as causas da crise para evitar repetições futuras

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  • Capital, investimento, lucro
  • Crédito malparado, perdas, recessão
Cofres bancários ©BELGA_imagebroker_Stefan Obermeier

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Na secção anterior referimos que algumas economias ganham muito mais dinheiro com as exportações do que gastam em importações, o que lhes permite emprestar a quem dele necessite. O mesmo se aplica às empresas e aos particulares: se ganharem mais do que gastam, ficam com dinheiro para emprestar. É aqui que entra a indústria financeira, que canaliza o dinheiro das poupanças para a concessão de créditos, obtendo lucros – ou perdas, como acontece cada vez mais – neste processo.
 
A intermediação financeira entre os que podem emprestar dinheiro e o que precisam de recorrer a crédito, tanto acontece entre economias – por exemplo a China investe os ganhos comerciais em obrigações dos EUA – como dentro das próprias economias – por exemplo um banco que empresta o dinheiro das poupanças dos particulares a uma empresa para construir uma fábrica. Os intermediários financeiros mais conhecidos são os bancos.
 
Os accionistas do banco investiram o seu dinheiro, o seu capital, na empresa. São accionistas do banco. A actividade dos bancos é simples: concede empréstimos com o dinheiro dos depositantes - imaginemos que a taxa de juro aplicada sobre as poupanças é de 3% - a particulares e a empresas -imaginemos que a taxa de juro aplicada sobre os empréstimos é de 5%. Uma vez que tem de pagar menos juros pelo dinheiro dos depósitos do que recebe pelos empréstimos e outros investimentos, o banco obtém um lucro de 5% menos 3%.
 
É assim que as coisas funcionam normalmente. Agora imaginemos que a economia entra em depressão. As empresas e os particulares em situação mais crítica começam a ter dificuldade em pagar os empréstimos contraídos, o que coloca o banco numa situação complicada. Os bancos continuam a dever a mesma quantidade de dinheiro aos depositantes, bancos, detentores de obrigações e outras entidades, mas recebe menos dinheiro pelos empréstimos concedidos, porque os mesmos não estão a ser pagos na totalidade. Se os depositantes que têm o seu dinheiro num banco perdem a confiança na instituição, pode ocorrer uma corrida aos bancos.
 
Se os depositantes considerarem que os empréstimos concedidos pelo banco se estão a transformar em crédito malparado e que a instituição poderá ficar sem dinheiro, o único acto razoável é retirar o dinheiro do banco com a maior rapidez possível. Se muitas pessoas fizerem o mesmo - como acontece geralmente em situações de pânico - o resultado será a falta de liquidez do banco, que emprestou a maior parte do dinheiro dos depositantes.
 
Se apenas alguns dos depositantes quiserem o seu dinheiro de volta num determinado momento, o banco pode dar resposta a esses levantamentos sem dificuldades, mas se todos os depositantes reclamarem o seu dinheiro simultaneamente, o banco ver-se-á obrigado a fechar, mesmo que a médio prazo não tivesse problemas em devolver os depósitos. Estamos perante uma situação diferente da insolvência, que sucede quando o crédito malparado atingiu proporções tais que o dinheiro que o banco deve aos credores é superior ao valor dos empréstimos e outros activos. Ainda que todos os activos fossem vendidos imediatamente, essa operação não geraria dinheiro suficiente para pagar aos credores.
 
Quando um empréstimo se transforma em crédito malparado, o banco regista uma perda, na medida em que o seu activo perdeu valor. Se não forem demasiado elevadas, as perdas fazem parte de qualquer negócio. Os bancos só precisam de garantir que têm dinheiro suficiente para pagar as dívidas e continuar em actividade, mesmo que uma pequena parte dos empréstimos concedidos se transforme em crédito malparado.
 
É por isso que o capital é tão importante. O capital é o dinheiro que os donos do banco investiram na empresa, tornando-se accionistas. Este capital é o primeiro a absorver as perdas decorrentes do crédito malparado. Se existir uma almofada de capital suficientemente confortável, os depositantes não têm de se preocupar com a eventualidade de não conseguirem levantar o dinheiro das suas poupanças, mas se as perdas ultrapassarem essa almofada de capital, chegou o momento de se preocuparem.
 
Dispor de dinheiro suficiente para fazer face a tempestades económicas quando os empréstimos se transformam em crédito malparado é fundamental para evitar pânicos bancários, razão pela qual as entidades reguladoras impuseram o designado rácio de solvabilidade, que consiste na relação entre o capital do banco e os seus activos, ou seja, empréstimos, obrigações e hipotecas, entre outros.
 
Imaginemos que o rácio de solvabilidade é de 8%, o que significa que os bancos têm de deter pelo menos 8 euros de capital próprio por cada 100 euros emprestados. Se um banco apenas receber 92 euros por esse empréstimo, a sua almofada de capital tem capacidade para absorver a perda. Quanto mais elevado for o rácio de solvabilidade, mais seguros são os depósitos.
 
Alavancagem é um conceito semelhante mas invertido - é a relação entre a dívida e o capital. Imaginemos um cidadão tem 50 euros de capital próprio para apostar num cavalo e duplicar o investimento inicial para 100 euros. Trata-se de um lucro de 100%! Por que não pedir primeiro 50 euros emprestados a um amigo e apostar 100 euros? Com um rácio de alavancagem de 1 (um euro de dívida por cada euro de capital), poderá obter 200 euros, pagar ao amigo os 50 euros emprestados e ficar com 150 euros, triplicando o investimento inicial.
 
É esta a atractividade da alavancagem, mas o mecanismo pode funcionar no sentido oposto. Se perder a aposta, o cidadão não só perde os seus 50 euros como fica a dever 50 euros ao amigo. A alavancagem amplifica os lucros quando as operações correm bem e as perdas quando correm mal.
 
É importante relembrar que todas as instituições financeiras, sejam bancos, fundos de pensão ou qualquer outra, exercem a sua actividade de forma basicamente idêntica. Em primeiro lugar, os accionistas têm de avançar com capital suficiente para poder abrir uma empresa financeira e absorver eventuais perdas. Em seguida, a empresa recebe dinheiro - dos depositantes, das poupanças para a reforma dos empregados, dos bancos de investimento - que investe  em diversos produtos financeiros - concessão de empréstimos e hipotecas, compra de acções e obrigações, aposta em derivativos - com o objectivo de obter lucros. A alavancagem é o mecanismo utilizado para aumentar os retornos do investimento com o dinheiro dos outros.
 
Quando os empréstimos se transformam em crédito malparado, as bolsas de valores entram em baixa e as perdas decorrentes são geralmente muito superiores às previstas pelas instituições financeiras. O capital existente para cobrir as perdas torna-se insuficiente, o que dá início ao pânico financeiro. Sendo o crédito o "sangue" que dá vida à economia e os mercados financeiros as "veias" por onde esse sangue corre, os governos são obrigados a avançar com o dinheiro dos contribuintes.
 
Para evitar que isto aconteça, o Parlamento Europeu defende o reforço da regulamentação dos mercados financeiros.
 
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